“E se eu não estiver aqui?”: Reflexões sobre o papel da mãe no cuidado e na terapia de crianças com deficiência

“WHAT IF I’M NOT HERE?”: REFLECTIONS ON THE ROLE OF THE MOTHER IN THE CARE AND THERAPY OF CHILDREN WITH DISABILITIES

“¿Y SI NO ESTOY AQUÍ?”: REFLEXIONES SOBRE EL ROL DE LA MADRE EN EL CUIDADO Y LA TERAPIA DE NIÑOS CON DISCAPACIDAD

Autor

URL do Artigo

https://iiscientific.com/artigos/895099

DOI

doi.org/10.63391/895099

Mendes, Patrícia . “E se eu não estiver aqui?”: Reflexões sobre o papel da mãe no cuidado e na terapia de crianças com deficiência. International Integralize Scientific. v 5, n 48, Junho/2025 ISSN/3085-654X

Resumo

Este estudo propõe uma reflexão sobre o papel da mãe no cuidado e na terapia de crianças com deficiência, considerando os impactos emocionais, sociais e estruturais decorrentes dessa responsabilidade. A pesquisa analisa como a maternidade atípica, frequentemente marcada pela sobrecarga e centralização dos cuidados na figura materna, influencia diretamente o desenvolvimento infantil e a saúde mental da mulher. Nesse sentido, o objetivo geral da pesquisa foi analisar como o papel da mãe no cuidado e na terapia de crianças com deficiência influencia o desenvolvimento da criança e quais são os impactos emocionais, sociais e estruturais decorrentes dessa responsabilidade. A metodologia adotada para o desenvolvimento desta pesquisa será de natureza qualitativa, com abordagem descritiva e exploratória. Serão utilizados procedimentos de revisão bibliográfica em fontes acadêmicas atualizadas e, caso aplicável, a análise de narrativas ou estudos de caso que permitam ilustrar com profundidade as vivências maternas. A escolha da abordagem qualitativa se justifica pela necessidade de captar as nuances emocionais e simbólicas da experiência de ser mãe de uma criança com deficiência, priorizando a escuta e a compreensão da subjetividade dessas mulheres. Os resultados apontam que a trajetória da maternidade atípica é marcada por inúmeros desafios que exigem não apenas atenção à criança com deficiência, mas também um olhar sensível e estruturado para as necessidades emocionais e psíquicas da mãe. Nesse contexto, a presença de uma rede de apoio, tanto real quanto simbólica, é fundamental na sustentação do cuidado. Nas considerações finais ficou evidente a relevância da ampliação de um olhar acadêmico e social sobre a maternidade atípica, reconhecendo as complexidades, invisibilidades e potências que atravessam a experiência dessas mulheres.
Palavras-chave
cuidados maternos; maternidade atípica; parentalidade; rede de apoio.

Summary

This study proposes a reflection on the role of the mother in the care and therapy of children with disabilities, considering the emotional, social, and structural impacts resulting from this responsibility. The research analyzes how atypical motherhood, often marked by overload and the centralization of care in the maternal figure, directly influences child development and the woman’s mental health. In this sense, the general objective of the study was to analyze how the mother’s role in caring for and supporting the therapy of children with disabilities influences the child’s development and what emotional, social, and structural impacts arise from this responsibility. The methodology adopted for the development of this research will be qualitative in nature, with a descriptive and exploratory approach. Bibliographic review procedures will be used, drawing on up-to-date academic sources and, where applicable, the analysis of narratives or case studies that allow for a deeper illustration of maternal experiences. The choice of a qualitative approach is justified by the need to capture the emotional and symbolic nuances of being a mother of a child with a disability, prioritizing listening and understanding the subjectivity of these women. The results indicate that the journey of atypical motherhood is marked by numerous challenges that demand not only attention to the child with a disability but also a sensitive and structured perspective on the emotional and psychological needs of the mother. In this context, the presence of a support network, both real and symbolic, is essential in sustaining care. In the final considerations, the relevance of expanding an academic and social perspective on atypical motherhood becomes evident, recognizing the complexities, invisibilities, and strengths that shape the experiences of these women.
Keywords
maternal care; atypical motherhood; parenthood; support network.

Resumen

Este estudio propone una reflexión sobre el papel de la madre en el cuidado y la terapia de niños con discapacidad, considerando los impactos emocionales, sociales y estructurales derivados de esta responsabilidad. La investigación analiza cómo la maternidad atípica, frecuentemente marcada por la sobrecarga y la centralización de los cuidados en la figura materna, influye directamente en el desarrollo infantil y en la salud mental de la mujer. En este sentido, el objetivo general de la investigación fue analizar cómo el rol materno en el cuidado y la terapia de niños con discapacidad influye en el desarrollo del niño y cuáles son los impactos emocionales, sociales y estructurales resultantes de esta responsabilidad. La metodología adoptada para el desarrollo de esta investigación será de carácter cualitativo, con un enfoque descriptivo y exploratorio. Se utilizarán procedimientos de revisión bibliográfica en fuentes académicas actualizadas y, cuando sea aplicable, el análisis de narrativas o estudios de caso que permitan ilustrar en profundidad las vivencias maternas. La elección del enfoque cualitativo se justifica por la necesidad de captar los matices emocionales y simbólicos de la experiencia de ser madre de un niño con discapacidad, priorizando la escucha y la comprensión de la subjetividad de estas mujeres. Los resultados indican que la trayectoria de la maternidad atípica está marcada por numerosos desafíos que exigen no solo atención al niño con discapacidad, sino también una mirada sensible y estructurada hacia las necesidades emocionales y psíquicas de la madre. En este contexto, la presencia de una red de apoyo, tanto real como simbólica, es fundamental para la sostenibilidad del cuidado. En las consideraciones finales, se evidenció la relevancia de ampliar la mirada académica y social sobre la maternidad atípica, reconociendo las complejidades, invisibilidades y potencialidades que atraviesan la experiencia de estas mujeres.
Palavras-clave
atención materna; maternidad atípica; crianza; red de apoyo.

INTRODUÇÃO

Parentalidade atípica, especialmente no que tange à vivência da mãe de uma criança com deficiência, constitui um campo de investigação relevante, urgente e ainda pouco explorado sob uma perspectiva que considere suas dimensões emocionais, sociais e subjetivas. A experiência materna diante do diagnóstico e do acompanhamento terapêutico do filho impõe uma série de desafios que extrapolam os aspectos clínicos e pedagógicos, exigindo uma escuta qualificada e sensível quanto aos efeitos desse percurso na constituição psíquica e na qualidade de vida dessa mulher (Barbosa, 2023).

A experiência da maternidade impacta diretamente a rotina e o percurso existencial da mulher, podendo ocasionar transformações e, por vezes, rompimentos significativos em suas atividades habituais (Guerra et al., 2015). Assumir o papel materno simultaneamente ao nascimento de uma criança é permeado por projeções e sonhos; quando o bebê nasce com alguma deficiência, instala-se uma nova configuração de vida, onde, além das projeções e expectativas frustradas, manifesta-se também o processo de luto pela criança idealizada. Tais transformações geram descontinuidade nas práticas diárias e modificações na dinâmica do núcleo familiar (Freitag, Milbrath & Milbrath, 2020). 

Barbosa (2023) analisa que todos os membros que compõem o núcleo familiar enfrentam impactos e transformações com a chegada de uma criança com deficiência. No entanto, percebe-se que a maior responsabilidade pelas tarefas e pelos cuidados diários recai sobre a figura materna, que assume para si uma dedicação quase total ao filho com deficiência, disponibilizando seu tempo integralmente às atividades relacionadas à rotina da criança, como consultas médicas, intervenções terapêuticas e cuidados básicos. 

Dessa maneira, essa mulher se vê forçada a colocar suas próprias atividades e interesses em segundo plano, vivenciando uma intensificação das exigências ligadas à maternidade (Guerra et al., 2015). Para uma compreensão mais detalhada formulou-se a seguinte problemática: como o papel da mãe no cuidado e na terapia de crianças com deficiência influencia o desenvolvimento da criança e quais são os impactos emocionais, sociais e estruturais decorrentes dessa responsabilidade?

Socialmente a justificativa da pesquisa repousa na necessidade de compreender as múltiplas camadas que envolvem a trajetória da mãe atípica, desde o momento do diagnóstico até os processos contínuos de cuidado e acompanhamento terapêutico da criança. Como justificativa técnica/científica a pesquisa buscou levantar discussões sobre inclusão, rede de apoio e abordagens terapêuticas venham se ampliando, observa-se uma lacuna na produção acadêmica quanto ao impacto emocional e psicológico vivido pelas mães, que, mesmo quando inseridas em redes de apoio, ainda carregam majoritariamente a responsabilidade pelo cuidado. 

O objetivo geral da pesquisa foi analisar como o papel da mãe no cuidado e na terapia de crianças com deficiência influencia o desenvolvimento da criança e quais são os impactos emocionais, sociais e estruturais decorrentes dessa responsabilidade.  Dentro dessa perspectiva, estabeleceu-se os seguintes objetivos específicos:  a) discutir a construção social e subjetiva da parentalidade atípica, com ênfase na figura materna; b) compreender os efeitos emocionais provocados pelo diagnóstico na vida da mãe; c) identificar o papel das redes de apoio e da terapia como instrumentos de fortalecimento psíquico e emocional materno e d) refletir sobre a importância do autocuidado e da escuta terapêutica no desenvolvimento de estratégias de enfrentamento por parte dessas mulheres.

A metodologia adotada para o desenvolvimento desta pesquisa será de natureza qualitativa, com abordagem descritiva e exploratória. Serão utilizados procedimentos de revisão bibliográfica em fontes acadêmicas atualizadas e, caso aplicável, a análise de narrativas ou estudos de caso que permitam ilustrar com profundidade as vivências maternas. A escolha da abordagem qualitativa se justifica pela necessidade de captar as nuances emocionais e simbólicas da experiência de ser mãe de uma criança com deficiência, priorizando a escuta e a compreensão da subjetividade dessas mulheres.

O desenvolvimento desta investigação é exposto na próxima seção, sendo composto por três subdivisões, que se dedicam à exploração teórica dos objetivos específicos, com ênfase na clarificação da questão de pesquisa. Ao final, o estudo apresenta suas conclusões, nas quais são retomados os principais resultados obtidos, visando avaliar o alcance das metas estabelecidas e oferecer uma resposta à problemática levantada, sob uma ótica de reflexão crítica e científica por parte da autora.

A CONSTRUÇÃO DA PARENTALIDADE ATÍPICA

A parentalidade é um conceito dinâmico, historicamente construído, que vai além do ato biológico de gerar filhos. Nesse sentido, funções emocionais, sociais e educacionais que os cuidadores exercem no processo de desenvolvimento da criança. O conceito de parentalidade e suas transformações refletem as mudanças culturais, sociais e subjetivas que redefinem constantemente o papel dos pais, especialmente das mães (Barbosa, 2023). Na parentalidade atípica, essas transformações são ainda mais acentuadas, uma vez que o nascimento ou diagnóstico de uma criança com deficiência impõe reconfigurações profundas nas práticas parentais, nos vínculos familiares e nas percepções individuais sobre o que é ser pai ou mãe (Moreira, 2022).

Sousa Viana e Benicasa (2023) analisam que , nesse contexto, emerge com intensidade a figura da mãe atípica, frequentemente colocada como o centro da estrutura de cuidado. A mãe assume a responsabilidade primária pela criança com deficiência, seja por questões culturais, emocionais ou pela ausência de uma divisão equitativa de tarefas entre os membros da família. 

Ematné et al. (2024) mencionam que essa dedicação materna muitas vezes extrapola os limites físicos e emocionais, pois a mãe se vê envolvida em todas as dimensões do cuidado: terapias, consultas médicas, questões escolares, alimentação, organização da rotina e, principalmente, o acolhimento emocional da criança. Mesmo quando há presença paterna ou de outros cuidadores, a carga principal tende a recair sobre a mulher, revelando um padrão que se repete em diversos contextos sociais.

Mesmo quando há presença paterna ou de outros cuidadores no núcleo familiar, a carga principal tende a recair sobre a mulher, revelando um padrão que se repete em diversos contextos sociais e culturais. Tal distribuição desigual das responsabilidades não é apenas uma questão circunstancial, mas reflete construções sociais e históricas acerca do papel da mulher como cuidadora principal. Isso gera uma sobrecarga emocional invisibilizada, que muitas vezes compromete a saúde mental, a identidade pessoal e a autonomia da mãe. Além disso, a exigência constante de desempenho e resiliência reforça a ideia de que a mãe deve estar sempre disponível, anulando-se em favor das necessidades do filho (Sousa Viana &  Benicasa, 2023). 

Esse cenário revela a necessidade urgente de repensar as estruturas de apoio à maternidade atípica, promovendo a corresponsabilidade no cuidado e a valorização das práticas de autocuidado e escuta terapêutica voltadas à figura materna. Ao se reconhecer a centralidade e, ao mesmo tempo, a fragilidade dessa posição, abre-se espaço para uma abordagem mais humana, empática e equitativa no acompanhamento das famílias de crianças com deficiência (Ematné et al., 2024). 

A dinâmica familiar e a distribuição dos cuidados são, portanto, profundamente impactadas pela presença de uma criança com necessidades atípicas. As prioridades familiares se reorganizam em função das demandas da criança, muitas vezes em detrimento das necessidades dos demais membros da família, incluindo a própria mãe. Assim, essa centralização do cuidado pode levar à sobrecarga física e mental da mulher, além de influenciar a relação conjugal, a vida profissional e o convívio social da mãe. A distribuição desigual das tarefas de cuidado evidencia não apenas uma questão de gênero, mas também a urgência de um olhar coletivo para o suporte familiar mais equitativo (Moreira, 2022).

Para Dantas et al. (2024), nesse cenário, é comum observar a invisibilidade do sofrimento materno. A sociedade costuma valorizar a resiliência, a força e a entrega incondicional da mãe, mas raramente reconhece suas dores, angústias, medos e sentimentos de exaustão. Essa invisibilidade contribui para o silenciamento da mulher, que muitas vezes internaliza suas emoções por não encontrar espaço de escuta e compreensão.

Sem o devido reconhecimento e apoio, esse sofrimento pode evoluir para quadros de adoecimento emocional, como ansiedade, depressão e isolamento social. Reconhecer esse sofrimento, portanto, é o primeiro passo para construir políticas públicas, práticas terapêuticas e redes de apoio que cuidem não apenas da criança com deficiência, mas também da mulher que sustenta cotidianamente o cuidado.

O DIAGNÓSTICO E SUAS IMPLICAÇÕES EMOCIONAIS

O momento do diagnóstico de uma deficiência em uma criança representa, para muitas mães, uma ruptura profunda com as expectativas idealizadas durante a gestação e os primeiros momentos da maternidade. O impacto do diagnóstico na vida materna é geralmente marcado por uma intensa desorganização emocional, em que sentimentos de choque, negação, tristeza e confusão se entrelaçam. A mãe, nesse cenário, se vê diante de uma nova realidade que exige adaptações imediatas, tanto no plano subjetivo quanto nas rotinas familiares e sociais. A confirmação de uma condição atípica muitas vezes desestabiliza não apenas as projeções em relação ao futuro do filho, mas também o sentido atribuído ao seu próprio papel como cuidadora primária (Borges et al., 2025).

Com o diagnóstico, emergem medos profundos, incertezas constantes e processos de culpabilização. A mãe, em muitos casos, questiona suas ações, sua genética ou possíveis falhas durante a gestação, em busca de explicações para a deficiência do filho. Essa autoculpa pode gerar sofrimento psíquico intenso, dificultando a aceitação da nova realidade. Soma-se a isso o medo do futuro: quem cuidará da criança se algo lhe acontecer? Como será a inserção escolar, social e profissional do filho? Tais inquietações acompanham a mulher de forma persistente, exigindo acolhimento e suporte contínuo (Dantas et al., 2024).

Diante desse cenário emocional adverso, a mãe precisa lidar com o luto pela criança idealizada , um processo subjetivo que, embora nem sempre verbalizado, é fundamental para a ressignificação da maternidade. Esse luto não significa rejeição da criança real, mas a elaboração das perdas simbólicas do que foi sonhado e não se concretizou. Somente ao reconhecer e vivenciar esse luto de forma legítima, a mãe poderá se reapropriar da maternidade sob uma nova perspectiva, mais realista, afetiva e possível. A ressignificação permite que ela se reconecte com seu filho de maneira mais autêntica, aceitando suas singularidades e potencialidades  (Borges et al., 2025).

Machado, Londres  e Pereira  (2018)  deixam evidente que a  chegada de uma criança ao núcleo familiar representa um marco significativo que demanda reorganizações estruturais, sendo um potencial gerador de estresse parental. Nesse contexto, os pais assumem um conjunto ampliado de responsabilidades, tornando-se a principal referência para o desenvolvimento da criança ao longo de sua trajetória. O suporte oferecido no ambiente familiar tem papel determinante na construção da identidade e na formação dos adultos que essas crianças se tornarão. Assim, as práticas educativas parentais e a qualidade do ambiente familiar configuram-se como variáveis fundamentais para o desenvolvimento saudável de crianças e adolescentes.

As responsabilidades e desafios inerentes à parentalidade tornam-se ainda mais acentuados quando se trata do cuidado de uma criança com TEA.. Nesse contexto, o papel da família assume uma relevância ampliada, uma vez que o desenvolvimento infantil pode estar em situação de risco caso não ocorra conforme os parâmetros esperados para sua faixa etária e seu contexto sociocultural (Pinto et al., 2016). 

Segundo Caparroz, Santos  e Soldera (2022) a  presença de uma deficiência, incapacidade estabelecida ou doença crônica pode constituir um fator de risco biológico, especialmente quando associada a condições ambientais desfavoráveis. O contexto familiar, nesse sentido, exerce uma influência determinante sobre o desenvolvimento da criança, sendo essencial que os cuidadores disponham de suporte adequado para mitigar desafios e favorecer a promoção de um ambiente propício ao seu crescimento e aprendizado 

Nesse sentido, retomando nosso estudo, o treinamento parental  possui um conjunto de intervenções estruturadas e sistemáticas que visam melhorar as habilidades de cuidado e educação dos pais ou cuidadores, proporcionando-lhes estratégias práticas e fundamentadas para lidar com as necessidades de seus filhos. No contexto do TEA, o treinamento parental adquire uma importância ainda maior, pois os pais enfrentam desafios únicos ao lidar com as dificuldades de comunicação, interação social e comportamentos repetitivos que caracterizam esse transtorno (Ferreira, 2023).

O treinamento é geralmente realizado por profissionais especializados, como psicólogos, terapeutas ocupacionais ou pedagogos, e pode abranger uma variedade de metodologias e abordagens terapêuticas, como a modificação comportamental, a terapia cognitivo-comportamental, a educação inclusiva e a terapia de treinamento social (Semensato & Bosa, 2017). 

Araujo (2024) evidencia que, nesse processo de reconstrução, a mãe passa também a desempenhar um papel essencial como mediadora da relação entre a criança e as terapias. Ela se torna o elo entre os profissionais e a realidade vivida no ambiente familiar, sendo muitas vezes a principal responsável por aplicar orientações, acompanhar evoluções e identificar demandas cotidianas. Tal função, no entanto, exige preparo emocional e suporte adequado, pois envolve grande responsabilidade e, por vezes, uma sobrecarga física e psíquica. Portanto, é fundamental reconhecer essa mulher como sujeito ativo e vulnerável nesse processo, que precisa ser acolhida em suas dores, escutada em suas angústias e fortalecida para continuar sua trajetória com dignidade e equilíbrio emocional.

REDE DE APOIO, TERAPIA E O CAMINHO PARA O FORTALECIMENTO DA MÃE

A trajetória da maternidade atípica é marcada por inúmeros desafios que exigem não apenas atenção à criança com deficiência, mas também um olhar sensível e estruturado para as necessidades emocionais e psíquicas da mãe. Nesse contexto, a presença de uma rede de apoio, tanto real quanto simbólica, é fundamental na sustentação do cuidado. A rede real refere-se a familiares, amigos, profissionais e instituições que compartilham, de forma prática e afetiva, as responsabilidades do cotidiano (Lemos, 2022). Já a rede simbólica envolve os aspectos subjetivos e afetivos que dão sentido à experiência de ser acolhida, compreendida e reconhecida em sua função materna. Ambas são essenciais para que a mulher não se sinta isolada nem sobrecarregada, contribuindo diretamente para a construção de um suporte sólido e afetivo (Ferreira, 2023).

Assim como, o envolvimento da mãe no processo terapêutico da criança é um elemento central para o avanço no desenvolvimento infantil. A terapia ABA, por exemplo, propõe não apenas intervenções técnicas com a criança, mas também a capacitação da mãe como agente ativa na construção da autonomia e das habilidades sociais do filho. No entanto, esse envolvimento intenso pode gerar sobrecarga se não for acompanhado por estratégias de cuidado da própria mãe. Por isso, é imprescindível compreender que, ao mesmo tempo em que ela participa do tratamento do filho, também precisa ser acolhida e orientada em sua própria jornada emocional (Stravogiannis, 2021).

Nesse sentido, o ingresso da mãe em um processo terapêutico próprio torna-se um caminho potente de reconstrução subjetiva. Ao cuidar de si, ela passa a compreender melhor seus sentimentos, limites e recursos, fortalecendo sua capacidade de cuidar do outro. A escuta clínica e o espaço terapêutico funcionam como dispositivos que auxiliam essa mulher a elaborar suas angústias, medos e frustrações, permitindo uma ressignificação do papel materno diante da deficiência do filho (Dantas et al., 2024).

Por fim, a construção de uma maternidade mais equilibrada e saudável passa necessariamente pelo estímulo ao autocuidado, à autocrítica e ao desenvolvimento da resiliência. A mãe que reconhece a importância de olhar para si, de aceitar ajuda, de questionar seus próprios padrões de exigência e de valorizar seus avanços cotidianos, desenvolve maior estabilidade emocional. Essa postura não apenas contribui para seu bem-estar, mas também potencializa sua atuação no desenvolvimento da criança, promovendo uma relação mais empática, consciente e transformadora.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente estudo tem como tema central o papel da mãe no cuidado e na terapia de crianças com deficiência, buscando compreender de que forma essa função influencia diretamente o desenvolvimento da criança, bem como os impactos emocionais, sociais e estruturais decorrentes dessa responsabilidade. A escolha por essa temática emerge da constatação de que, embora o cuidado da criança atípica esteja, teoricamente, amparado por uma rede de apoio composta por familiares, profissionais da saúde e instituições especializadas, na prática, a carga mais significativa ainda recai sobre a figura materna. A mãe, muitas vezes, assume integralmente a rotina terapêutica, médica, escolar e emocional da criança, abrindo mão de suas próprias demandas subjetivas e profissionais para dedicar-se de forma intensa e contínua aos cuidados.

A partir dessa problemática, o objetivo geral da pesquisa foi analisar como o envolvimento materno no cuidado e na terapia impacta o desenvolvimento da criança com deficiência e, ao mesmo tempo, investigar as repercussões emocionais, sociais e estruturais que recaem sobre essa mulher. A pesquisa parte da compreensão de que a maternidade atípica é marcada por uma série de rupturas e ressignificações que atravessam a subjetividade da mãe, alterando suas ocupações, seus vínculos familiares e sua percepção de si mesma.

Com base nesse enfoque, a investigação se desdobra em quatro objetivos específicos, que buscam aprofundar as múltiplas dimensões do fenômeno. O primeiro consiste em discutir a construção social e subjetiva da parentalidade atípica, com ênfase no lugar simbólico e prático ocupado pela mãe no contexto do cuidado. Trata-se de entender como os discursos sociais, culturais e institucionais contribuem para a centralização dessa responsabilidade na figura feminina, reforçando padrões de gênero e expectativas de abnegação materna.

O segundo objetivo visa compreender os efeitos emocionais provocados pelo diagnóstico de deficiência na vida da mãe, reconhecendo os sentimentos de medo, luto, culpa e angústia que emergem a partir do momento em que o diagnóstico rompe com as idealizações da maternidade tradicional. A partir disso, a pesquisa busca, no terceiro objetivo, identificar o papel das redes de apoio – reais e simbólicas – e da terapia como instrumentos fundamentais para o fortalecimento psíquico e emocional da mãe, analisando como esses dispositivos contribuem para a construção de um suporte mais estruturado e humano à maternidade atípica. 

Por fim, o estudo se propõe a refletir sobre a importância do autocuidado e da escuta terapêutica como estratégias fundamentais de enfrentamento emocional e psicológico para essas mulheres, evidenciando que, ao cuidar de si, a mãe torna-se mais apta a promover o cuidado qualificado e afetivo da criança.

Dessa forma, a presente pesquisa pretende contribuir com a ampliação do olhar acadêmico e social sobre a maternidade atípica, reconhecendo as complexidades, invisibilidades e potências que atravessam a experiência dessas mulheres. Ao colocar em evidência não apenas a criança com deficiência, mas também a mulher que sustenta o cuidado, pretende-se fomentar reflexões interdisciplinares que possam subsidiar práticas de acolhimento mais empáticas, inclusivas e transformadoras 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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BARBOSA, I. F. (2023). Maternidade, criança e deficiência: Reflexão dos impactos nas ocupações que envolvem essa relação familiar.

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GUERRA, C. D. S., Dias, M. D., Filha, M. D. O. F., Andrade, F. B. D., Reichert, A. P. D. S., & Araújo, V. S. (2015). Do sonho a realidade: vivência de mães de filhos com deficiência. Texto & Contexto-Enfermagem, 24, 459-46

Moreira, M. C. N. (2022). Configurações do ativismo da parentalidade atípica na deficiência e cronicidade. Ciência & Saúde Coletiva, 27(10), 3939-3948.

LEMOS, P. S. (2022). Autismo: uma família atípica–relato de uma mãe/psicóloga. Editora CRV.

STRAVOGIANNIS, A. L. (2021). Autismo: um olhar por inteiro. Literare Books.

Sousa Viana, C. T., & Benicasa, M. (2023). Maternidade atípica: termo e conceito. Revista Acadêmica Online, 9(46).

Mendes, Patrícia . “E se eu não estiver aqui?”: Reflexões sobre o papel da mãe no cuidado e na terapia de crianças com deficiência.International Integralize Scientific. v 5, n 48, Junho/2025 ISSN/3085-654X

Referencias

Vivian Caroline Coraucci.
BAILEY, C. J.; LEE, J. H.
Management of chlamydial infections: A comprehensive review.
Clinical infectious diseases.
v. 67
n. 7
p. 1208-1216,
2021.
Disponível em: https://academic.oup.com/cid/article/67/7/1208/6141108.
Acesso em: 2024-09-03.

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