A importância do treinamento parental e suas estratégias na intervenção do TEA: Uma abordagem baseada na análise do comportamento aplicada (ABA)

THE IMPORTANCE OF PARENTAL TRAINING AND ITS STRATEGIES IN ASD INTERVENTION: AN APPROACH BASED ON APPLIED BEHAVIOR ANALYSIS (ABA)

LA IMPORTANCIA DEL ENTRENAMIENTO PARENTAL Y SUS ESTRATEGIAS EN LA INTERVENCIÓN DEL TEA: UN ENFOQUE BASADO EN EL ANÁLISIS CONDUCTUAL APLICADO (ABA)

Autor

URL do Artigo

https://iiscientific.com/artigos/A043E7

DOI

doi.org/10.63391/A043E7

Mendes, Patrícia . A importância do treinamento parental e suas estratégias na intervenção do TEA: Uma abordagem baseada na análise do comportamento aplicada (ABA). International Integralize Scientific. v 5, n 48, Junho/2025 ISSN/3085-654X

Resumo

O treinamento parental é uma abordagem essencial na intervenção de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), especialmente quando aliado aos princípios da Análise do Comportamento Aplicada (ABA). Essa metodologia visa capacitar os pais e cuidadores a aplicarem estratégias comportamentais no ambiente familiar, promovendo o desenvolvimento de habilidades sociais, comunicativas e adaptativas na criança. A ABA, como abordagem baseada em evidências científicas, utiliza reforçamento positivo, modelagem e ensino estruturado para modificar comportamentos e estimular respostas funcionais. Quando os pais recebem treinamento adequado, são capazes de identificar estímulos que influenciam o comportamento da criança, implementar intervenções consistentes e criar um ambiente propício ao aprendizado contínuo. O objetivo geral da pesquisa foi compreender de que maneira o treinamento parental aliado à Análise do Comportamento Aplicada (ABA) contribui para o desenvolvimento e a autonomia de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Utilizou-se da metodologia de revisão da literatura para levantar resultados de 32 artigos científicos. Tratou-se de uma pesquisa com abordagem qualitativa, de natureza básica, com objetivos descritivos e procedimento bibliográfico. Os resultados mostram que a importância do treinamento parental reside em sua capacidade de aumentar a eficácia das intervenções terapêuticas ao estender o aprendizado além do ambiente clínico, facilitando a generalização das habilidades adquiridas para o cotidiano da criança. Nas considerações finais, constatou-se que a realização de mais estudos sobre o treinamento parental aliado à Análise do Comportamento Aplicada (ABA) na intervenção do Transtorno do Espectro Autista (TEA) é essencial para ampliar o conhecimento científico e oferecer práticas mais eficazes e acessíveis.
Palavras-chave
análise do comportamento aplicada (ABA); transtorno do espectro autista (TEA); treinamento parental.

Summary

Parental training is an essential approach in the intervention of children with Autism Spectrum Disorder (ASD), especially when combined with the principles of Applied Behavior Analysis (ABA). This methodology aims to empower parents and caregivers to apply behavioral strategies in the family environment, promoting the development of social, communicative, and adaptive skills in the child. ABA, as an evidence-based approach, uses positive reinforcement, modeling, and structured teaching to modify behaviors and encourage functional responses. When parents receive proper training, they become capable of identifying stimuli that influence the child’s behavior, implementing consistent interventions, and creating an environment conducive to continuous learning. The general objective of this research was to understand how parental training combined with Applied Behavior Analysis (ABA) contributes to the development and autonomy of children with Autism Spectrum Disorder (ASD). The study employed a literature review methodology, analyzing 32 scientific articles. It was a qualitative, basic research with descriptive objectives and a bibliographic procedure. The results show that the importance of parental training lies in its ability to enhance the effectiveness of therapeutic interventions by extending learning beyond the clinical setting, facilitating the generalization of acquired skills to the child’s daily life. In the final considerations, it was concluded that further studies on parental training combined with Applied Behavior Analysis (ABA) in the intervention of Autism Spectrum Disorder (ASD) are essential to expand scientific knowledge and provide more effective and accessible practices.
Keywords
applied behavior analysis (ABA); autism spectrum disorder (ASD); parental training.

Resumen

El entrenamiento parental es un enfoque esencial en la intervención de niños con Trastorno del Espectro Autista (TEA), especialmente cuando se combina con los principios del Análisis Conductual Aplicado (ABA). Esta metodología tiene como objetivo capacitar a los padres y cuidadores para aplicar estrategias conductuales en el entorno familiar, promoviendo el desarrollo de habilidades sociales, comunicativas y adaptativas en el niño. El ABA, como enfoque basado en evidencia científica, utiliza el refuerzo positivo, la modelación y la enseñanza estructurada para modificar conductas y fomentar respuestas funcionales. Cuando los padres reciben una formación adecuada, son capaces de identificar los estímulos que influyen en el comportamiento del niño, implementar intervenciones consistentes y crear un ambiente propicio para el aprendizaje continuo. El objetivo general de la investigación fue comprender cómo el entrenamiento parental, combinado con el Análisis Conductual Aplicado (ABA), contribuye al desarrollo y la autonomía de niños con Trastorno del Espectro Autista (TEA). Se utilizó la metodología de revisión bibliográfica, con el análisis de 32 artículos científicos. Se trató de una investigación cualitativa, de naturaleza básica, con objetivos descriptivos y procedimiento bibliográfico. Los resultados muestran que la importancia del entrenamiento parental radica en su capacidad para aumentar la eficacia de las intervenciones terapéuticas al extender el aprendizaje más allá del entorno clínico, facilitando la generalización de las habilidades adquiridas al día a día del niño. En las consideraciones finales, se constató que la realización de más estudios sobre el entrenamiento parental combinado con el Análisis Conductual Aplicado (ABA) en la intervención del Trastorno del Espectro Autista (TEA) es esencial para ampliar el conocimiento científico y ofrecer prácticas más eficaces y accesibles.
Palavras-clave
análisis conductual aplicado (ABA); trastorno del espectro autista (TEA); entrenamiento parental.

INTRODUÇÃO

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) caracteriza-se por uma desordem de neurodesenvolvimento infantil, apresentando dificuldades sociocomunicativas e comportamentais. Silva, Lira e Farias (2021) informam que o TEA é um transtorno do comportamento que afeta a criança em sua fase de desenvolvimento, produzindo resultados altamente comprometedores se não houver uma intervenção multidisciplinar e precoce. Os principais prejuízos aplicam-se ao campo do desenvolvimento linguístico (verbal e não verbal), comunicacional, de fala, de escuta, cognitivo, da produção de sentimentos e expressões, dos relacionamentos interpessoais e outros.

Em idade escolar, é requerível que as crianças evoluam em aprendizados basilares ao pleno desenvolvimento. Mas, a manifestação do TEA impõe dificuldades que atrapalham o desenvolvimento destas crianças, não apenas no ambiente educacional, mas também nos demais tipos de ambientes com os quais interagem. O aparecimento dos primeiros sintomas do TEA ocorre desde o nascimento ou nos primeiros anos de vida do infante (Oliveira et al., 2018).

O diagnóstico desse tipo de transtorno deve ser conduzido, de acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais 5ª edição (DSM-5), divulgado pela American Psychiatric Association (APA), desde 2014, sob uma avaliação díade que verifique o déficit de interação sociocomunicacional e o comportamento e interesses restritivos e repetitivos (APA, 2014). O diagnóstico precoce é importante para que haja o manejo de intervenções terapêuticas imediatas, sendo elas necessárias para promover melhorias no desenvolvimento neurocomportamental de crianças autistas (Alves, 2024).

Silva (2022), destaca que as intervenções em crianças com TEA devem ser conduzidas sob um viés multidisciplinar, com áreas do conhecimento essenciais na promoção de melhorias nas condições manifestadas por esses sujeitos. Dentre os campos necessários, destaca-se a Psicologia, a Psicopedagogia, a Fonoaudiologia e outros. Neste contexto, observa-se que há muitas possibilidades que coexistem na prática clínica das intervenções em crianças autismo, dentre elas, a Applied Behavior Analysis (ABA), em português traduzida para Análise Comportamental Aplicada, é indicada como uma essencial ferramenta de apoio ao desenvolvimento de práticas psicoterapêuticas capazes de obter maiores progressos com esses pacientes.

Sendo assim, dentro dessa abordagem baseada em princípios comportamentais, a ABA tem se consolidado como uma ferramenta imprescindível para promover o desenvolvimento de habilidades em crianças com TEA , assim como, melhoria da dinâmica familiar. Oliveira e Silva (2021) destacam a ABA como uma ciência terapêutica ou uma terapia focada no estudo do comportamento humano em aspectos socialmente relevantes.

Adicionalmente a isso, o envolvimento ativo dos pais por meio do treinamento parental emerge como uma estratégia essencial para potencializar os resultados das intervenções baseadas na ABA. Tal prática permite que as famílias adquiram habilidades necessárias para aplicar, no cotidiano, procedimentos que favoreçam o desenvolvimento comportamental e social da criança, além de reduzir os níveis de estresse familiar (Silva, Lira & Farias, 2021).

Apesar das evidências sobre a eficácia da ABA e do treinamento parental no contexto do TEA, ainda se observa um déficit na disseminação e aplicação dessas práticas em larga escala, especialmente em países em desenvolvimento, como o Brasil (Ferreira & Almeida, 2022). Muitas famílias enfrentam desafios relacionados ao acesso limitado a profissionais especializados e à falta de programas estruturados que incluam o treinamento parental como parte fundamental do processo de intervenção (Costa, Lima & Freitas, 2021). Para condução da pesquisa formulou-se enquanto problema de investigação a seguinte indagação: como o treinamento parental aliado à Análise do Comportamento Aplicada (ABA) contribui para o desenvolvimento e a autonomia de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA)?

A justificativa social da pesquisa reside na necessidade de demonstrar que o treinamento parental, quando aliado à Análise do Comportamento Aplicada, promove resultados significativos no desenvolvimento de habilidades comportamentais e sociais em crianças com TEA. Assim como, capacitar os pais a aplicar estratégias baseadas na ABA, os efeitos da intervenção se estendem para além dos contextos clínicos, promovendo uma maior autonomia e qualidade de vida familiar.

O objetivo geral da pesquisa foi compreender de que maneira o treinamento parental aliado à Análise do Comportamento Aplicada (ABA) contribui para o desenvolvimento e a autonomia de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Para tanto, foram definidos, enquanto objetivos específicos, os seguintes: a) identificar as principais estratégias de treinamento parental utilizadas em intervenções baseadas na ABA; b) avaliar os benefícios do treinamento parental no desenvolvimento de crianças com TEA e na dinâmica familiar; e c) discutir os desafios e limitações relacionados à implementação de programas de treinamento parental no contexto brasileiro.

Utilizou-se da metodologia de revisão da literatura para levantar resultados de estudos científicos, livros e normatizações que abordam sobre a temática. Dados estatísticos foram utilizados em complemento na fundamentação, servindo para demonstrar a dimensão do objeto de estudo da pesquisa. Tratou-se de uma pesquisa com abordagem estritamente qualitativa, de natureza básica, com objetivos descritivos e procedimento bibliográfico, uma vez que todos os resultados encontrados serviram para qualificar o problema, contribuem para expandir o campo do conhecimento científico, foram devidamente descritos com as respectivas citações de autorias, por meio do procedimento que mais se adequou ao tipo de metodologia e de trabalho.

Os estudos científicos foram buscados nas bases de dados do Google Scholar, do Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (Lilacs) e do Scientific Electronic Library Online (SciELO). Ao todo, foram selecionados 32 estudos científicos para compor as referências da pesquisa, de todos os 60 encontrados, por terem atendidos aos critérios de seleção (ano de publicação 2017-2023 e idiomas, inglês, espanhol e português) e não terem sido eliminados pelos critérios de exclusão (estudos incompletos, estudos resumidos e impertinência de público-alvo (crianças com TEA). Cerca de dois livros compõem a fundamentação da pesquisa, com autorias de Ana Sella e Daniela Ribeiro (2018) e de Celso Goyos (1969). O DSM-5 de 2014 compõe as referências como normatização científica necessária para validar indicativos de classificação do TEA. Ademais, foram utilizados dados estatísticos extraídos da OMS (2017) e do CDC (2021). 

COMPREENDENDO O TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA (TEA): CARACTERÍSTICAS, DESAFIOS E IMPACTOS NO CONTEXTO FAMILIAR

De acordo com Medeiros et al. (2023), o TEA é uma condição neuropsicológica que se caracteriza como um dos tipos de transtornos que afetam o neurodesenvolvimento humano. Em consonância com o conceito provido pelo Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais, DMS-5, o TEA é conceituado como um tipo de transtorno do neurodesenvolvimento que provoca prejuízos de comunicação e interação social, além da presença de comportamentos repetitivos vinculados com os interesses e atividades pessoais dos seus portadores (APA, 2014). Oliveira, Moraes e Cabral (2023, p. 2) mencionam que:

O transtorno do espectro do autismo (TEA) está relacionado a uma condição de início precoce, cujas dificuldades são relacionadas à ausência ou limitações: no uso da linguagem, na interação social e das atividades imaginativas, bem como padrões restritos/repetitivos de comportamento (Grifo aplicado).

Nota-se então que o conceito do TEA envolve a noção de uma condição neuropsicológica que manifesta-se de forma precoce, sendo então uma alteração neurocognitiva degenerada durante a gestação e que acompanha os indivíduos desde o nascimento, não sendo uma condição desenvolvida após o nascimento (Oliveira, Moraes & Cabral, 2023). Por isso, Magalhães et al. (2022), indicam no estudo por eles produzido que o TEA é um tipo de deficiência neurocognitiva de ordem crônica, que acompanha os indivíduos portadores ao longo de toda a vida.

Para Corrêa et al. (2022), o TEA é uma síndrome comportamental de ordem complexa, com múltiplos fatores que estão diretamente associados com preditores maternos e genéticos, incidente nas fases pré, intra e pós-parto, além dos riscos ambientais, os quais elevam as chances de desenvolvimento da condição. Pitz, Gallina e Schultz (2021) informam que o Autismo foi descrito pela primeira vez no ano de 1943, por Leo Kanner, sendo a condição uma disfunção do neurodesenvolvimento, o qual ainda possui etiologia desconhecida, mas a teoria mais aceita confirma que o TEA está associado com fatores biológico-genético-ambiental.

São fatores de risco para o desenvolvimento do TEA, os seguintes:

[…] baixo peso ao nascer, prematuridade, polidrâmnio, infecções pré-natais, partos múltiplos, fertilização in vitro, idade materna e paterna avançada ou grande diferença entre a idade dos genitores, a presença de irmãos com TEA e parentes próximos com diagnósticos psiquiátricos (Medeiros et al., 2023, p. 2).

Não se pode pensar no autismo como uma condição irreversível, mas que perdura durante toda a vida, sendo passível apenas de intervenções neuropsicológicas capazes de amenizar os as manifestações clínicas, promovendo uma melhor qualidade de vida (Flor, 2023). Côrrea et al. (2022) citam que para que se possa promover melhor qualidade de vida para indivíduos autistas, é preciso dispor de intervenções capazes de amenizar a incidência e intensidade das manifestações clínicas desenvolvidas pela condição neurocognitiva do desenvolvimento.

Para compreender os sintomas ou manifestações clínicas do TEA, é preciso considerar que esse tipo de transtorno do neurodesenvolvimento promove limitações nas capacidades de comunicação, de interação social e de comportamento da pessoa com autismo (Corrêa et al., 2022). O DSM-5 informa que indivíduos autistas têm dificuldades de se comunicar – verbalmente ou não verbalmente –, de estabelecer relações ou interações sociais – mesmo nas relações de maior afetividade, como as relações familiares –, possuem comportamentos repetitivos e geralmente associados com os seus interesses pessoais, não conseguem prender o foco em coisas que precisam e outras repercussões que envolvem as capacidades comunicacionais, interacionais e comportamentais (APA, 2014).

De forma geral, o TEA apresenta manifestações clínicas vinculadas com as questões comunicacionais, interacionais e comportamentais da pessoa com autismo e, como dito por Costa, Lima e Freitas (2022, p. 72) é um “déficit de comunicação e interação social, além de apresentar padrões restritos e repetitivos de comportamento, também pode estar associado a prejuízo intelectual, ou outras desordens comportamentais, mentais e de neurodesenvolvimento”. Importa considerar que as manifestações clínicas do TEA podem variar de tipos e intensidade caso a caso, variando ainda de acordo com a idade dos portadores (Feifer et al., 2020).

Os desafios enfrentados por crianças com TEA afetam múltiplas áreas do desenvolvimento, especialmente nas competências sociais, cognitivas e motoras. Segundo Santos et al. (2021), crianças com TEA apresentam atrasos significativos na aquisição de habilidades de comunicação e interação social, o que interfere diretamente no aprendizado e na construção de vínculos interpessoais. Além disso, a dificuldade em lidar com mudanças e a presença de comportamentos repetitivos podem limitar a participação dessas crianças em ambientes escolares e sociais.

No contexto educacional, as dificuldades de adaptação e a falta de suporte adequado frequentemente resultam em exclusão ou segregação (Silva, Costa & Freitas , 2020). As barreiras no desenvolvimento infantil também incluem a dificuldade de generalização de habilidades aprendidas em ambientes controlados para contextos mais amplos e cotidianos. Adicionalmente, há uma maior prevalência de comorbidades, como Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), distúrbios do sono e epilepsia, que intensificam os desafios e exigem intervenções multidisciplinares (Moura & Rodrigues, 2022).

O diagnóstico de TEA impacta significativamente a dinâmica familiar, exigindo adaptações nos papéis parentais, na rotina e nas expectativas em relação ao desenvolvimento infantil. Segundo Ferreira e Almeida (2021), as famílias frequentemente enfrentam desafios emocionais, como estresse, ansiedade e depressão, além de dificuldades financeiras decorrentes do custo elevado das intervenções e terapias necessárias.

A sobrecarga emocional e física, especialmente entre os cuidadores primários, é uma preocupação recorrente. Estudos apontam que mães e pais de crianças com TEA apresentam níveis mais elevados de estresse parental em comparação com famílias de crianças com desenvolvimento típico ou outros transtornos do neurodesenvolvimento (Oliveira et al., 2021). Além disso, a falta de apoio social e profissional adequado pode agravar o isolamento e a vulnerabilidade das famílias.

Por outro lado, o envolvimento ativo dos pais em intervenções estruturadas, como o treinamento parental baseado na Análise do Comportamento Aplicada (ABA), tem mostrado benefícios tanto para o desenvolvimento da criança quanto para o fortalecimento da relação familiar (Costa & Lima, 2020). Este tipo de intervenção permite que os cuidadores adquiram habilidades para manejar comportamentos desafiadores, promovendo maior autonomia e qualidade de vida para a criança com TEA e sua família. Na próxima seção será compreendido as principais características da Análise do Comportamento Aplicada ABA. 

ANÁLISE DO COMPORTAMENTO APLICADA (ABA): PRINCÍPIOS, APLICAÇÕES NO TEA E EVIDÊNCIAS DE EFICÁCIA

Algumas metodologias com ramificações da Psicologia são indicadas para as intervenções multidisciplinares realizadas no tratamento de transtornos. Nas intervenções pretendidas com transtornos de comportamento, como o TEA, as terapias comportamentais são as mais sugeridas (Barcelos et al., 2020). No rol destas, a ABA apresenta-se como o tipo de metodologia terapêutica mais utilizada em casos clínicos de crianças autistas e com transtornos similares, os quais produzem déficits de comportamento e aprendizagem (Silva, 2022).

Nascimento e Santos (2018, p. 165) destacam que:

A Teoria Comportamental, proposta por Skinner, é extensa e, por se tratar de uma ciência embasada em estudos empíricos da Análise Experimental do Comportamento, vem sendo amplamente difundida pela vertente da Análise Comportamental Aplicada, cuja finalidade é transpor o que foi cientificamente comprovado, em laboratório, para as práticas sociais em geral e não apenas nos casos de desenvolvimento atípico.

A ABA então é uma ramificação prática da Análise Experimental do Comportamento, transpondo as validações científicas no campo clínico das intervenções terapêuticas (Medeiros, 2021). Gaiato et al. (2022) destaca que a premissa básica da ABA é trabalhar os comportamentos positivos dos indivíduos, reforçando-os. Mizael e Ridi (2022) informam que a metodologia ou método ABA busca familiarizar os indivíduos com comportamentos alvos, os quais são tidos como positivos e, quando ocorre a espera familiarização, há a redução sistemática dos comportamentos disruptivos, de forma gradual, até que os indivíduos sejam capazes de adotarem o referido comportamento por conta própria.

De acordo com Silva (2022) a ABA possui sete dimensões/princípios necessários para serem observados em intervenções terapêuticas, sendo eles: a) aplicada; b) comportamental; c) analítica; d) tecnológica; e) conceitual; f) eficaz; g) generalizável . Seus objetivos são indicados em três dimensões, sendo eles: a) a avaliação das habilidades funcionais e a priorização delas; b) a realização de trabalhos com os indivíduos e famílias, facilitando aspectos importantes no processo da aprendizagem, a exemplo da interação social; c) a execução de programas de ensino/aprendizagem  que  tenham  enfoque  nas  habilidades  da  criança,  acompanhando periodicamente a avaliação do comportamento nos respectivos ambientes analisados (Benitez, 2020).

Santos (2021) pontua que a intervenção por meio da ABA é uma das propostas mais crescentes nos últimos anos, uma vez que, em transtornos do desenvolvimento, como o TEA, trabalha de forma intensiva e individualizada as habilidades necessárias para que os indivíduos adquiram independência e melhores a qualidade de vida. Os comportamentos e as afetações do desenvolvimento são os enfoques desse tipo de metodologia, buscando a integração dos indivíduos nos ambientes com os quais convivem da melhor forma possível (Filha et al., 2019).

Matos (2018), retomam aos indicativos epistêmicos de Burrhus Frederic Skinner (1904-1990) para aludir sobre a teoria do comportamento operante, sobre qual compreendeu-se que uma dada frequência repetitiva de um comportamento tende a aumentar ou reduzir pelas consequências que estes produzem. Com base nesse entendimento baseado no behaviorismo, no comportamento operante, os indivíduos atuam, fazem, agem e operam sobre os ambientes, modificando-os e, ao mesmo tempo, sendo por eles modificados (Oliveira, Silva, 2021).

Se há uma finalidade de selecionar comportamentos operantes positivos, entende-se sobre o ponto de vista de Skinner, que o próprio indivíduo deve se comportar, ou seja, se estando diante de um determinado estímulo, em um dado ambiente, um organismo se comporta e será reforçado positivamente, então será aumentada a probabilidade de o mesmo comportamento ocorrer no exato contexto. Mas, se um determinado comportamento nunca for reforçado em um dado contexto, a probabilidade desse comportamento se repetir é significativamente reduzida (Filha et al., 2019).

É justamente sob os apontamentos de Skinner, que a ABA se debruça pela busca de uma repetição dos comportamentos positivos em indivíduos que possuem algum tipo de transtorno invasivo do comportamento, principalmente naqueles diagnosticados com TEA, considerando que nesses indivíduos a busca pela repetição de comportamentos operantes positivos é um fator essencial ao pleno desenvolvimento dos mesmos (Andalécio et al., 2019). Apesar de utilizar-se dos apontamentos científicos de Skinner, assim como outras terapias comportamentais, Silva (2022) aponta que a ABA traz uma singularidade mais adequada, uma vez que foca justamente na questão da produção e estímulo-resposta, sendo esse um ponto crucial em diferentes tipos de transtornos invasivos do comportamento. 

No rol das psicoterapias comportamentais existentes, Sousa et al. (2020), destaca que a ABA tem sido a terapia mais utilizada no tratamento de transtornos do comportamento, principalmente em países como o Canadá e os EUA. De acordo com os autores, trata-se de uma metodologia que enfoca na desconstrução do comportamento repetitivo, pois:

[…] se estrutura sobre a ideia de que o comportamento é modelado pelo ambiente por meio das consequências. Desta forma, se um comportamento é seguido de uma consequência favorável (reforço), ele tende a continuar e até aumentar de frequência; mas se o comportamento não é reforçado, ou se o tipo de reforço usado não é mais gratificante, o comportamento tende a diminuir de frequência e até extinguir (Souza et al., 2020, p. 108).

O reforço das influências do comportamento operante é indispensável no processo de desenvolvimento de indivíduos com transtornos invasivos do desenvolvimento. Oliveira e Silva (2021) destacam que a ABA é utilizada para melhorar o comportamento socialmente relevante, sendo aplicada a situações reais, buscando por melhorias de comportamentos apropriados ou inapropriados, podendo eles serem aumentados ou reduzidos.

É importante reconhecer o comportamento sob a episteme de Skinner e outros teóricos clássicos, o qual é classificado por uma interação entre os indivíduos e os ambientes com quais interagem (Matos 2018). Sob esse entendimento, o ambiente pode influenciar no comportamento, assim como o comportamento pode influir no ambiente. Trata-se de uma relação díade de estímulo-resposta com mútua troca de interação entre o indivíduo e o ambiente (Andalécio et al., 2019). 

Silva (2022) pontua que esta compreensão é relevante para compreender que em alguns tipos de transtornos comportamentais há um déficit significativo entre a díade interativa (indivíduo x ambiente) o que dificulta a materialização dos comportamentos operantes positivos deles esperados. A ABA no treinamento parental é a abordagem da próxima seção, onde será compreendido que o treinamento parental baseado na ABA traz benefícios significativos tanto para as crianças com TEA como para a família.

TREINAMENTO PARENTAL NO TEA

O treinamento parental é uma intervenção estruturada que tem como objetivo capacitar pais e cuidadores a desenvolverem habilidades necessárias para promover o desenvolvimento adequado de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Baseado em abordagens comportamentais, como a Análise do Comportamento Aplicada (ABA), esse treinamento fornece estratégias práticas para que os familiares possam manejar comportamentos desafiadores, reforçar comportamentos positivos e estimular o aprendizado em contextos naturais (Smith & Iadarola ,2021).

O conceito do treinamento parental parte do pressuposto de que os pais exercem uma função na vida da criança, sendo agentes fundamentais na aplicação das intervenções de maneira contínua e efetiva. Sendo assim, essa abordagem é baseada em um modelo colaborativo, no qual os pais aprendem técnicas de ensino comportamental, como o uso do reforço positivo, extinção de comportamentos inadequados, modelagem e ensino estruturado, com o suporte de profissionais qualificados (Oliveira et al., 2021).

A importância do treinamento parental reside em sua capacidade de aumentar a eficácia das intervenções terapêuticas ao estender o aprendizado além do ambiente clínico, facilitando a generalização das habilidades adquiridas para o cotidiano da criança. Os estudos de Lopes et al. (2020), apontam que a capacitação dos pais contribui significativamente para a redução de comportamentos disruptivos, melhora das habilidades de comunicação e interação social e fortalecimento dos vínculos familiares. Assim como, o envolvimento parental promove maior empoderamento e autonomia, reduzindo o estresse e a sobrecarga emocional que frequentemente afetam as famílias de crianças com TEA (Ferreira & Almeida, 2021).

Logo, o treinamento parental, aliado a intervenções baseadas em evidências como a ABA, é uma estratégia essencial para otimizar os resultados no desenvolvimento da criança com TEA, promovendo mudanças significativas na qualidade de vida de toda a família. As estratégias de intervenção parental para crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) são fundamentadas em metodologias baseadas em evidências, com destaque para a Análise do Comportamento Aplicada (ABA). Essas estratégias visam capacitar pais e cuidadores a implementar técnicas efetivas no manejo comportamental e na promoção do desenvolvimento de habilidades funcionais em contextos naturais, como o ambiente domiciliar (Lopes et al., 2020).

Entre as principais estratégias, destaca-se o uso do reforçamento positivo, que consiste em identificar e recompensar comportamentos adequados para aumentar sua frequência. Essa técnica é amplamente aplicada em intervenções baseadas na ABA e pode ser implementada no cotidiano dos pais, incentivando a criança a adquirir novas habilidades, como comunicação funcional, socialização e autonomia (Costa & Lima, 2020). Outra estratégia relevante é a modelagem de comportamento, em que os pais demonstram a ação desejada para que a criança a imite, promovendo o aprendizado por observação. Essa abordagem é eficaz no ensino de habilidades motoras, linguagem e comportamentos adaptativos, permitindo que as crianças generalizem o aprendizado em diferentes contextos (Ferreira & Almeida, 2021).

O uso da extinção de comportamentos inadequados também é uma técnica frequente no treinamento parental. Ela envolve a redução de comportamentos desafiadores ao ignorar reforçadores que os mantêm, como atenção excessiva ou ganhos imediatos. A aplicação correta dessa estratégia exige orientação profissional, para que os pais consigam identificar os fatores que antecedem e mantêm esses comportamentos (Moura & Rodrigues, 2022).

Adicionalmente a isso, tem-se que as rotinas estruturadas são fundamentais para crianças com TEA, pois fornecem previsibilidade e reduzem a ansiedade associada às mudanças inesperadas. Os pais são orientados a organizar o ambiente físico e temporal da criança, utilizando agendas visuais e outros suportes que facilitem a compreensão das atividades diárias (Oliveira et al., 2021). Bem como, destaca-se a generalização das habilidades, em que os pais aplicam intervenções em diferentes ambientes e com diferentes pessoas. Isso assegura que a criança desenvolva habilidades funcionais e generalize comportamentos aprendidos em contextos clínicos ou terapêuticos (Silva et al., 2020).

A implementação dessas estratégias de intervenção parental, aliada ao suporte de profissionais especializados, tem demonstrado resultados positivos no desenvolvimento de habilidades sociais, comunicativas e comportamentais em crianças com TEA, além de fortalecer a autoconfiança e o bem-estar dos cuidadores (Smith & Iadarola, 2021).

Como mencionado no desenvolvimento da pesquisa, o treinamento parental baseado na Análise do Comportamento Aplicada (ABA) apresenta diversos benefícios na intervenção de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Um dos principais ganhos está na promoção de habilidades comportamentais e sociais das crianças, uma vez que os pais passam a atuar como facilitadores do desenvolvimento em contextos naturais, como o ambiente familiar.

Entretanto, apesar dos benefícios, o treinamento parental apresenta desafios e limitações importantes. Uma das principais dificuldades está relacionada à adesão e à aplicação consistente das estratégias pelos pais, que podem enfrentar barreiras como falta de tempo, estresse acumulado e a necessidade de conciliar a rotina familiar com as intervenções. A ausência de suporte contínuo e acompanhamento profissional também pode comprometer a eficácia da intervenção, levando a uma aplicação inadequada das técnicas baseadas na ABA (Moura & Rodrigues, 2022).

Outro desafio é a diversidade de perfis familiares, que demanda adaptações nas intervenções para atender às particularidades socioeconômicas e culturais de cada núcleo. Famílias em situação de vulnerabilidade, por exemplo, podem encontrar dificuldades adicionais de acesso a programas de treinamento parental de qualidade, o que limita a disseminação dessa abordagem (Silva et al., 2020).

Além disso, o treinamento parental exige um esforço contínuo e uma curva de aprendizado que pode gerar frustração nos cuidadores, especialmente quando os progressos das crianças ocorrem de forma gradual. A necessidade de apoio psicológico aos pais torna-se, portanto, um aspecto crucial para mitigar os desafios emocionais e assegurar a continuidade do programa (Oliveira et al., 2021).

Assim, embora o treinamento parental baseado na ABA traga benefícios significativos tanto para as crianças com TEA quanto para suas famílias, é fundamental reconhecer as limitações e desafios existentes. A implementação eficaz desse programa exige suporte profissional contínuo, adaptações às particularidades familiares e políticas públicas que ampliem o acesso a essas intervenções, promovendo a inclusão e o bem-estar integral dos envolvidos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os resultados levantados foram suficientes para responder a pergunta norteadora e os objetivos primário e secundários da pesquisa. Sendo assim, ficou evidente que o treinamento parental aliado à Análise do Comportamento Aplicada (ABA) influencia significativamente no desenvolvimento e na autonomia de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Dessa forma, a pesquisa demonstrou que através de intervenções como a ABA que apresenta uma abordagem baseada em evidências científicas, utiliza princípios do comportamento para ensinar habilidades funcionais, sociais e comunicativas, além de reduzir comportamentos inadequados.

Um dos resultados apontados é que quando os pais são treinados para aplicar essas técnicas em contextos cotidianos, a intervenção torna-se contínua e adaptada à rotina familiar, o que favorece a generalização das aprendizagens em diferentes ambientes. Logo, viu-se que esse modelo capacita os pais a identificar os comportamentos-alvo e aplicar estratégias eficazes, como reforço positivo, ensino por tentativas discretas e modelagem. 

Com isso, a criança desenvolve habilidades importantes, como comunicação funcional, autonomia em tarefas diárias e controle de comportamentos desafiadores, promovendo maior independência. Além disso, o envolvimento parental fortalece os laços familiares e reduz o estresse associado à criação de uma criança com TEA, tornando a intervenção mais acessível e sustentável ao longo do tempo.

Portanto, o treinamento parental aliado à ABA é uma estratégia eficaz para melhorar o desenvolvimento global e a qualidade de vida das crianças com TEA, ao mesmo tempo em que proporciona ferramentas práticas e de longo prazo para as famílias enfrentarem os desafios do transtorno. A realização de mais estudos sobre o treinamento parental aliado à Análise do Comportamento Aplicada (ABA) na intervenção do Transtorno do Espectro Autista (TEA) é essencial para ampliar o conhecimento científico e oferecer práticas mais eficazes e acessíveis.

Investigar a temática permite identificar estratégias que potencializam o desenvolvimento e a autonomia das crianças com TEA, além de proporcionar suporte adequado às famílias. Estudos adicionais podem contribuir para adaptar as intervenções a diferentes contextos socioeconômicos e culturais, promovendo maior inclusão e qualidade de vida para os indivíduos com TEA e seus cuidadores.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Disponível em: https://academic.oup.com/cid/article/67/7/1208/6141108.
Acesso em: 2024-09-03.

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v. 5
n. 48
A importância do treinamento parental e suas estratégias na intervenção do TEA: Uma abordagem baseada na análise do comportamento aplicada (ABA)

Área do Conhecimento

Análise do comportamento aplicada – ABA
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