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Resumo
INTRODUÇÃO
Esta pesquisa tem como enfoque central avaliar como a capacitação parental baseada no ABA pode melhorar os resultados comportamentais e emocionais em crianças com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), caracterizado pela dificuldade de atenção, impulsividade e, em alguns casos, hiperatividade, o qual tem um papel crucial na vida escolar, social e familiar da criança.
De acordo com Mattos (2006), o Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) é caracterizado por sintomas de dificuldades de atenção, controlar impulsos, e em muitos casos, por agitação.
Diante da prevalência do transtorno e seus efeitos no contexto familiar, surge a necessidade de intervenções que incluam o envolvimento direto dos pais no processo terapêutico.
O cuidar de uma criança com TDAH vai além do que se imagina. Não se trata apenas de lidar com agitação, distração ou impulsividade: é necessário compreender profundamente como essa criança sente, percebe o mundo e reage a ele. A partir dessa perspectiva, a Análise do Comportamento Aplicada (ABA) se apresenta como uma ferramenta valiosa, especialmente quando adaptada à realidade familiar por meio da capacitação dos pais.
Assim como a psicanálise propõe uma escuta atenta do inconsciente, a ABA nos convida a observar com cuidado as relações entre o ambiente, o comportamento e suas consequências. O que se busca, então, é entender como certas atitudes se mantêm ou se transformam, e como podemos intervir de forma respeitosa e eficaz para ajudar a criança a desenvolver suas habilidades e lidar melhor com suas dificuldades.
Desta forma, discutiremos como os princípios da ABA podem ser ensinados aos pais, tornando-os agentes de mudança dentro do lar, especialmente no que se refere à promoção de comportamentos positivos, ao manejo de funções executivas prejudicadas e à construção de um ambiente familiar mais previsível e acolhedor.
FUNDAMENTOS DA ABA E SUA APLICAÇÃO AO TDAH
Para que os pais possam lidar com mais confiança e compreensão diante das dificuldades do TDAH, é fundamental conhecer a metodologia científica considerando que os comportamentos são adquiridos e podem ser alterados de acordo com as consequências que os acompanham. Dessa forma, a criança tende a repetir ações que são reforçadas e a deixar de lado aquelas que não recebem recompensas.
Entre as abordagens eficazes está a Análise do Comportamento Aplicada (ABA), a Terapia ABA é uma abordagem eficaz para ajudar crianças com TDAH a desenvolver habilidades comportamentais e de autocontrole. Ao estimular comportamentos positivos e reduzir comportamentos indesejados, a ABA oferece métodos personalizados para cada criança, levando em conta suas necessidades específicas, que tem mostrado resultados positivos na modificação de comportamentos por meio do uso sistemático de reforços, estímulos discriminativos, extinção e modelagem. Segundo Souza (2012), o envolvimento dos pais em programas baseados em ABA favorece a aquisição de habilidades e melhora a gestão do comportamento infantil no cotidiano.
O conceito fundamental da ABA é estimular ações funcionais e reforçar as competências existentes, além de modelar aquelas que ainda não estão consolidadas, para que o indivíduo aprenda a se relacionar com a sociedade, expandindo seu entendimento.
A Análise do Comportamento Aplicada (ABA) é um campo dedicado ao estudo das funções do comportamento e à alteração de padrões por meio de intervenções estruturadas em variáveis do ambiente. No Brasil, sua utilização tem aumentado, especialmente em áreas clínicas e educacionais, abrangendo crianças com TDAH, dificuldades de aprendizagem e autismo (Almeida-Verdu et al., 2011).
A abordagem parental fundamentada na Análise do Comportamento Aplicada (ABA) possibilita que as intervenções saiam do consultório e sejam implementadas de maneira permanente no lar, o que aumenta sua eficácia. Segundo Marques e Del Prette (2010), a formação dos pais amplia as opções de respostas educativas, promovendo a troca de métodos coercitivos por técnicas de reforço positivo e comunicação clara.
REFORÇO POSITIVO E MODELAGEM: TÉCNICAS PARA A MUDANÇA
Um dos principais métodos da ABA é o reforço positivo, que envolve recompensar a criança por comportamentos desejados, como focar em uma tarefa ou cumprir instruções de forma adequada.
Por exemplo, o terapeuta pode propor estratégias de incentivos, no qual a criança tem a oportunidade de conquistar pontos ou pequenas recompensas por cada atividade cotidiana concluída com sucesso. Isso motiva a criança a repetir o comportamento positivo, ajudando a melhorar sua concentração com o tempo.
Além disso, o reforço positivo pode ser uma maneira de estimular o aprendizado e a seguir rotinas, como organizar os materiais escolares ou completar atividades diárias sem se distrair.
No contexto do desenvolvimento infantil, este tipo de reforço, especialmente com elogio, é fundamental para que a criança entenda as consequências positivas e sinta-se incentivada a atingir suas metas, evoluindo o senso de responsabilidade.
Contudo, o reforço positivo é uma estratégia essencial da Análise do Comportamento Aplicada (ABA) e envolve a promoção de comportamentos desejáveis através da oferta de consequências benéficas. Segundo Silva, 2006, para as crianças que apresentam TDAH, este método é uma abordagem valiosa na ampliação de comportamentos como seguir ordens, concluir tarefas e moderar impulsos.
Já a modelagem é um processo que desenvolve gradualmente um comportamento, utilizando reforços em etapas. Essa técnica se mostra especialmente útil para o aprendizado de novas habilidades, como organização, planejamento e competências sociais. De acordo com Del Prette e Del Prette (2009), a modelagem é uma abordagem eficaz para o aprimoramento das habilidades socioemocionais nas crianças, podendo ser aplicada com sucesso pelos cuidadores no contexto familiar.
Assim, as alterações positivas na conduta dos pais contribuirão para o desenvolvimento da autonomia, autoestima elevada, autorregulação, relações sociais mais proveitosas, prevenção e/ou combate de atitudes problemáticas.
A autorregulação é a capacidade de lidar com as emoções, se tornando grande aliado como reforço positivo para pessoas com TDAH, a fim de melhorar o controle de impulsos e a concentração, principalmente frente a situações desafiadoras.
A fim de contribuir com a autorregulação, a ABA pode contribuir com o aprimoramento deste controle ao promover intervenções que favoreçam a previsibilidade, o reforço imediato e a clareza nas instruções (Almeida-Verdu et al., 2011).
De acordo com Moreira e Medeiros (2007), essas ações organizam o ambiente para que a criança compreenda o que se espera dela, reduzindo a frequência de comportamentos desadaptativos.
Assim, a autorregulação comportamental em indivíduos com TDAH refere-se à capacidade de gerenciar e controlar emoções e comportamentos, especialmente em situações que exigem foco e atenção. Pessoas com TDAH podem apresentar dificuldades em regular suas emoções e comportamentos devido a desafios nas funções executivas, como planejamento, organização e controle de impulsos.
AMBIENTE FAMILIAR COMO CONTEXTO DE INTERVENÇÃO
O ambiente familiar desempenha um papel crucial no desenvolvimento e tratamento do TDAH. Uma família estruturada, com rotinas claras e comunicação positiva, pode auxiliar no desenvolvimento de habilidades de organização, atenção e controle de impulsos em crianças com TDAH.
Sendo assim, é de extrema importância compreender que muitas das dificuldades enfrentadas no TDAH estão associadas ao planejamento, foco da atenção, controle de impulsos, além de lidar com a frustração.
A orientação parental pode preservar a narrativa de cada família, seus desafios e valores. Assim como na psicanálise, onde o espaço para a fala e a acolhida é valorizado, na ABA é crucial forjar uma aliança colaborativa entre pais e profissionais. Envolver ativamente os membros da família contribui para a preservação das melhorias comportamentais ao longo do tempo. Schmidt et al. (2020)
O estudo de Matsuda e Cypel (2018) demonstra que no Brasil, a partir de 2018, as intervenções baseadas em ABA têm eficácia, mas ganham força real quando os pais são treinados para implementá-las na vida real, com apoio contínuo. É aqui que a psicologia faz o seu melhor, por meio da escuta, orientação e adaptação das intervenções às realidades de cada família.
Segundo Staples (1990, p. 30), o empoderamento pode ser compreendido como a habilidade contínua de indivíduos ou grupos de atuarem em favor de si mesmos, buscando maior controle sobre suas vidas e trajetórias. No contexto familiar, essa ideia se traduz na capacitação dos pais para que possam intervir de forma ativa e eficaz junto à criança no ambiente doméstico. O objetivo é que esses responsáveis desenvolvam segurança e autonomia semelhantes à de um profissional capacitado, promovendo, assim, o progresso da criança com TDHA — que, quando conta com esse suporte familiar, tende a apresentar avanços mais significativos em seu desenvolvimento.
Neste intuito, a família proporciona o primeiro e mais importante contexto interpessoal para o desenvolvimento humano e, como resultado, as relações familiares têm uma profunda influência sobre a saúde mental das crianças, e por isso, elas são de fundamental importância no desenvolvimento infantil. Sendo assim, o treinamento de pais contribui para a melhora da qualidade das interações familiares e para a diminuição do estresse parental (Souza, 2012).
A orientação parental fundamentada nos princípios da Análise do Comportamento Aplicada (ABA), conforme apontam Marques e Del Prette (2010), tem como foco capacitar os cuidadores a compreenderem as motivações por trás dos comportamentos infantis, favorecendo intervenções mais assertivas. Por meio do uso de reforçadores positivos e de métodos de ensino planejados e sistemáticos, os pais não apenas auxiliam na modificação comportamental, mas também estreitam o vínculo afetivo com a criança, contribuindo diretamente para seu desenvolvimento emocional e social.
EVIDÊNCIAS E EXPERIÊNCIAS NO CONTEXTO BRASILEIRO
A Análise do Comportamento Aplicada (ABA) também se dedica à intervenção em comportamentos considerados desafiadores, como agressividade, impulsividade, dificuldades de concentração e padrões repetitivos ou ritualísticos.
Por meio de uma avaliação cuidadosa das funções desses comportamentos, são planejadas intervenções que visam não apenas a redução dessas respostas, mas também o ensino de habilidades alternativas mais apropriadas, promovendo melhor qualidade de vida para a criança e sua família. Essa abordagem respeita o ritmo individual e considera o contexto em que a criança está inserida, favorecendo mudanças sustentáveis e efetivas.
Além disso, a abordagem é bem recebida por famílias de diferentes contextos socioeconômicos, uma vez que permite adaptações culturais e é centrada em práticas do cotidiano. Souza (2012) reforça que a autonomia dos pais na aplicação das estratégias garante a continuidade dos ganhos terapêuticos mesmo após o encerramento do acompanhamento clínico.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A capacitação parental baseada na ABA é uma abordagem eficaz para o manejo comportamental de crianças com TDAH. Ao compreenderem os princípios da análise do comportamento, os pais tornam-se capazes de agir de forma mais consciente e estruturada diante dos desafios diários. Essa atuação contribui para o fortalecimento dos vínculos afetivos e para a melhoria do ambiente familiar como um todo.
Além disso, ao desenvolverem estratégias de reforço positivo e modelagem, os cuidadores auxiliam na construção de repertórios comportamentais mais adaptativos. Com intervenções direcionadas às funções executivas, também se promove maior autonomia, organização e autorregulação nas crianças. Assim, a ABA, aplicada no contexto familiar, apresenta-se como um recurso valioso na promoção do bem-estar psicológico e social da criança e de sua família.
Promover a capacitação parental com base na ABA é mais do que ensinar técnicas: é reconhecer o papel fundamental que os pais ocupam na vida emocional e no desenvolvimento de seus filhos. Ao compreender melhor o funcionamento do TDAH e ao aplicar estratégias com paciência e constância, os cuidadores tornam-se aliados importantes na promoção do bem-estar da criança.
O trabalho do psicólogo é essencial nesse processo, tanto como orientador quanto como acolhedor das inseguranças e angústias familiares. A psicologia, ao se aproximar do cotidiano das famílias com escuta sensível e conhecimento técnico, amplia as possibilidades de cuidado e transformação.
No fim das contas, mais do que corrigir comportamentos, o que se busca é construir relações mais compreensivas e saudáveis, onde a criança possa crescer sentindo-se segura, valorizada e capaz.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALMEIDA-VERDU, A. C. M. et al. Estratégias baseadas em análise do comportamento para promoção de habilidades executivas em crianças com TDAH. Revista Brasileira de Terapias Cognitivas, v. 7, n. 2, p. 34–42, 2011.
DEL PRETTE, Z. A. P.; DEL PRETTE, A. Psicologia das habilidades sociais na infância: teoria e prática. Petrópolis: Vozes, 2009.
MARQUES, D. R.; DEL PRETTE, Z. A. P. Capacitação de pais como recurso para a promoção de habilidades sociais em crianças. Psicologia: Teoria e Prática, v. 12, n. 2, p. 99–112, 2010.
MATTOS, P. Tudo sobre o TDAH: Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade. São Paulo: M. Books, 2006.
MOREIRA, M. A.; MEDEIROS, K. B. Treinamento de pais como recurso para prevenção de problemas de comportamento. Psicologia: Ciência e Profissão, v. 27, n. 2, p. 276–289, 2007.
SILVA, A. T. C.; HÜBNER, M. M. Reforço positivo e manejo de comportamentos agressivos em crianças com TDAH: estudo de caso. Acta Comportamentalia, v. 14, n. 1, p. 45–56, 2006.
SOUZA, D. G. Intervenções comportamentais para crianças com TDAH: uma revisão de práticas com foco na parentalidade. Psicologia em Estudo, v. 17, n. 1, p. 91–100, 2012.
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