Tomada de decisão na gestão educacional: Um relato de experiência sob a perspectiva da neurociência

DECISION-MAKING IN EDUCATIONAL MANAGEMENT: AN EXPERIENCE REPORT FROM THE PERSPECTIVE OF NEUROSCIENCE

TOMA DE DECISIONES EN LA GESTIÓN EDUCATIVA: UN RELATO DE EXPERIENCIA DESDE LA PERSPECTIVA DE LA NEUROCIENCIA

Autor

URL do Artigo

https://iiscientific.com/artigos/FC191D

DOI

doi.org/10.63391/FC191D

Rochadel, Joyce Silva Jerônimo. Tomada de decisão na gestão educacional: Um relato de experiência sob a perspectiva da neurociência. International Integralize Scientific. v 5, n 49, Julho/2025 ISSN/3085-654X

Resumo

A tomada de decisão no contexto da gestão educacional envolve múltiplas variáveis e exige do gestor mais do que conhecimento técnico: requer sensibilidade, escuta e equilíbrio entre razão e emoção. Este artigo parte da vivência da autora como gestora escolar entre 2020 e 2021, período em que enfrentou resistência por parte das famílias à participação no Conselho Deliberativo Escolar (CDE). Sem apoio teórico naquele momento, a condução do processo foi baseada na intuição e na observação das reações emocionais dos envolvidos. Posteriormente, ao entrar em contato com os estudos de Steven Pinker e António Damásio, a autora passou a compreender os mecanismos cognitivos e afetivos que influenciaram suas decisões. O objetivo do artigo é investigar como os elementos emocionais e racionais se entrelaçam na gestão democrática da escola, à luz da neurociência. A metodologia adotada é o relato de experiência, com base em registros pessoais e análise reflexiva. Os resultados apontam que a compreensão dos processos mentais pode ampliar a eficácia das decisões e fortalecer vínculos entre escola e comunidade. Conclui-se que a integração entre emoção e razão, quando reconhecida e trabalhada conscientemente, contribui para uma liderança mais empática, participativa e alinhada às necessidades do coletivo escolar.
Palavras-chave
gestão educacional; tomada de decisão; neurociência; emoção e razão; participação democrática.

Summary

Decision-making in educational management involves more than technical knowledge; it demands emotional awareness, attentive listening, and the ability to balance logic with intuition. This article presents the author’s experience as a school principal between 2020 and 2021, during which she encountered resistance from families to participate in the School Deliberative Council (CDE). At the time, without theoretical grounding, her approach relied on intuition and sensitivity to emotional cues. Only later, through the works of Steven Pinker and António Damásio, did she begin to understand the cognitive and emotional mechanisms underlying her decisions. The article aims to explore how emotional and rational elements interact in democratic school management, drawing on insights from neuroscience. The methodology is based on an experience report, supported by personal records and reflective analysis. Findings suggest that understanding how the brain processes decisions can enhance leadership strategies and foster stronger school-community relationships. The study concludes that recognizing the interplay between emotion and reason can lead to more empathetic, inclusive, and responsive educational leadership.
Keywords
educational management; decision-making; neuroscience; emotion and reason; democratic participation.

Resumen

La toma de decisiones en la gestión educativa no se limita al conocimiento técnico; implica también sensibilidad emocional, capacidad de escucha y equilibrio entre intuición y razonamiento. Este artículo presenta la experiencia de la autora como directora escolar entre 2020 y 2021, cuando enfrentó la falta de participación de las familias en el Consejo Deliberativo Escolar (CDE). En ese momento, sin respaldo teórico, su actuación se basó en la intuición y en la observación de las emociones presentes. Más adelante, al conocer las teorías de Steven Pinker y António Damásio, comprendió los procesos mentales que influyeron en sus decisiones. El objetivo del artículo es analizar cómo se entrelazan los aspectos emocionales y racionales en la gestión democrática de la escuela, desde la perspectiva de la neurociencia. La metodología utilizada es el relato de experiencia, apoyado en registros personales y análisis reflexivo. Los resultados indican que comprender el funcionamiento del cerebro en situaciones de decisión puede fortalecer el liderazgo y mejorar la relación entre la escuela y la comunidad. Se concluye que integrar emoción y razón de forma consciente favorece una gestión más humana, participativa y coherente con las necesidades del entorno escolar.
Palavras-clave
gestión educativa; toma de decisiones; neurociencia; emoción y razón; participación democrática.

INTRODUÇÃO

A tomada de decisão no ambiente escolar é um processo que vai além da escolha entre alternativas administrativas. Ela envolve relações humanas, atravessa emoções, exige escuta e, muitas vezes, acontece sob pressão de múltiplas demandas. Em contextos educacionais, decidir não é apenas um ato técnico, mas também um gesto ético e afetivo. Estudos sobre o funcionamento da mente humana, como os de Pinker, Damásio e Garrido, têm demonstrado que razão e emoção não atuam separadamente no momento da decisão. Pelo contrário, são dimensões que se entrelaçam e influenciam diretamente a forma como os gestores educacionais percebem, interpretam e respondem às situações do cotidiano escolar.

Nesse cenário, o problema que se impõe é: como a interação entre razão e emoção interfere nas decisões tomadas no âmbito da gestão educacional, especialmente em contextos que exigem participação democrática? A partir dessa questão, o objetivo geral deste trabalho é compreender de que maneira os aspectos emocionais e cognitivos influenciam o processo decisório de gestores escolares. Como desdobramentos, propõem-se os seguintes objetivos específicos: (1) refletir sobre os fundamentos neurocientíficos que explicam o papel das emoções nas decisões humanas; (2) analisar, à luz desses fundamentos, uma experiência concreta de gestão escolar; e (3) identificar estratégias que favoreçam uma liderança mais consciente, empática e participativa.

A relevância desta pesquisa está em aproximar os campos da neurociência e da gestão educacional, promovendo um diálogo que ainda é pouco explorado nas práticas escolares. Ao considerar que o cérebro humano não separa sentir de pensar, e que decisões são atravessadas por experiências vividas, memórias afetivas e percepções subjetivas, amplia-se a compreensão sobre o papel do gestor como alguém que precisa lidar com a complexidade das relações e não apenas com a lógica institucional. Essa abordagem contribui para repensar a formação de líderes escolares, incorporando dimensões que tradicionalmente foram deixadas à margem dos debates pedagógicos.

Além disso, ao trazer um relato de experiência como ponto de partida, a pesquisa valoriza o saber da prática e reconhece que a teoria ganha sentido quando se conecta com a realidade vivida. A experiência analisada — a tentativa de mobilizar famílias para participarem do Conselho Deliberativo Escolar (CDE) — revela como decisões intuitivas, tomadas sem embasamento teórico prévio, podem ser reinterpretadas à luz de estudos sobre cognição e emoção. Essa releitura permite não apenas compreender o que foi feito, mas também aprimorar futuras ações, tornando o processo decisório mais consciente e alinhado às necessidades da comunidade escolar.

A metodologia adotada é o relato de experiência, com base em registros pessoais da autora durante sua atuação como gestora escolar entre os anos de 2020 e 2021. A análise é conduzida de forma reflexiva, articulando vivências concretas com os aportes teóricos de autores que discutem o papel das emoções e da razão na construção das decisões humanas. Essa escolha metodológica permite explorar, com profundidade e autenticidade, os sentidos atribuídos às ações realizadas e os aprendizados que delas emergiram.

A tomada de decisão no ambiente escolar é um processo que vai além da escolha entre alternativas administrativas. Ela envolve relações humanas, atravessa emoções, exige escuta e, muitas vezes, acontece sob pressão de múltiplas demandas. Em contextos educacionais, decidir não é apenas um ato técnico, mas também um gesto ético e afetivo. Estudos sobre o funcionamento da mente humana, como os de Pinker, Damásio e Garrido, têm demonstrado que razão e emoção não atuam separadamente no momento da decisão. Pelo contrário, são dimensões que se entrelaçam e influenciam diretamente a forma como os gestores educacionais percebem, interpretam e respondem às situações do cotidiano escolar.

Nesse cenário, o problema que se impõe é: como a interação entre razão e emoção interfere nas decisões tomadas no âmbito da gestão educacional, especialmente em contextos que exigem participação democrática? A partir dessa questão, o objetivo geral deste trabalho é compreender de que maneira os aspectos emocionais e cognitivos influenciam o processo decisório de gestores escolares. Como desdobramentos, propõem-se os seguintes objetivos específicos: (1) refletir sobre os fundamentos neurocientíficos que explicam o papel das emoções nas decisões humanas; (2) analisar, à luz desses fundamentos, uma experiência concreta de gestão escolar; e (3) identificar estratégias que favoreçam uma liderança mais consciente, empática e participativa.

A relevância desta pesquisa está em aproximar os campos da neurociência e da gestão educacional, promovendo um diálogo que ainda é pouco explorado nas práticas escolares. Ao considerar que o cérebro humano não separa sentir de pensar, e que decisões são atravessadas por experiências vividas, memórias afetivas e percepções subjetivas, amplia-se a compreensão sobre o papel do gestor como alguém que precisa lidar com a complexidade das relações e não apenas com a lógica institucional. Essa abordagem contribui para repensar a formação de líderes escolares, incorporando dimensões que tradicionalmente foram deixadas à margem dos debates pedagógicos.

Além disso, ao trazer um relato de experiência como ponto de partida, a pesquisa valoriza o saber da prática e reconhece que a teoria ganha sentido quando se conecta com a realidade vivida. A experiência analisada — a tentativa de mobilizar famílias para participarem do Conselho Deliberativo Escolar (CDE) — revela como decisões intuitivas, tomadas sem embasamento teórico prévio, podem ser reinterpretadas à luz de estudos sobre cognição e emoção. Essa releitura permite não apenas compreender o que foi feito, mas também aprimorar futuras ações, tornando o processo decisório mais consciente e alinhado às necessidades da comunidade escolar.

A metodologia adotada é o relato de experiência, com base em registros pessoais da autora durante sua atuação como gestora escolar entre os anos de 2020 e 2021. A análise é conduzida de forma reflexiva, articulando vivências concretas com os aportes teóricos de autores que discutem o papel das emoções e da razão na construção das decisões humanas. Essa escolha metodológica permite explorar, com profundidade e autenticidade, os sentidos atribuídos às ações realizadas e os aprendizados que delas emergiram.

DESENVOLVIMENTO

Ao vivenciar a experiência profissional na área da gestão escolar, uma das primeiras assembleias escolares se revelou como um desafio inesperado, tendo em vista a manifestação evidente da resistência dos pais em participar do Conselho Deliberativo Escolar. Essa hesitação indicava que o engajamento comunitário exigiria uma abordagem mais estratégica e sensível, para além da simples apresentação de normas e diretrizes. O silêncio predominava quando houve a solicitação dos voluntários para compor o segmento dos responsáveis. 

As justificativas eram diversas: falta de tempo, insegurança sobre o papel no conselho, descrença na efetividade das decisões colegiadas. O momento se tornou tenso. Nesse momento, se percebeu que insistir sem apresentar uma abordagem diferente poderia tornar a participação ainda mais inviável. Era evidente que a gestão democrática da escola dependia do envolvimento dos diversos segmentos, mas como gestora, não possuía embasamento teórico sobre como contornar essa resistência. Mesmo sem conhecer Pinker e Damásio, a intuição levou a reformular as estratégias, demonstrando que a experiência e a intuição fazem parte do processo decisório eficaz, assim como propõe Pinker (1999).

Diante do impasse, se decidiu mudar a abordagem. Em vez de reforçar argumentos técnicos sobre a importância da participação coletiva no CDE e da gestão democrática, optou-se por compartilhar histórias sobre como a participação dos pais impactaria diretamente na vida escolar dos filhos, contribuindo nas questões político-pedagógico, administrativas e financeiras do âmbito escolar. O relato sobre as experiências de outras instituições demonstrou que, mais do que uma obrigação burocrática, o conselho representava uma oportunidade de transformação real. Além disso, a criação de um espaço aberto para perguntas permitiu que os pais expressassem suas preocupações e refletissem sobre a importância da sua atuação na construção de uma comunidade escolar mais participativa. 

O ambiente foi se transformando aos poucos. Houve maior interação e interesse, bem como as primeiras indicações. Ao final da assembleia, se logrou êxito na constituição dos representantes necessários.

A experiência narrada demonstra que a tomada de decisão na gestão escolar não depende exclusivamente de lógica e normas, mas de um equilíbrio entre razão e emoção. Conhecendo as reflexões de Pinker (1999), Damásio (2022) e Brosch et al. (2013), é notório os mecanismos que estavam por trás da dinâmica aplicada aos pais, pois Steven Pinker (1999), no capítulo Desvairados, explora como emoções intensas podem interferir na tomada de decisão, trazendo maior clareza sobre os aspectos psicológicos envolvidos no episódio vivido. O autor argumenta que emoções como raiva, medo, vergonha ou culpa não apenas afetam momentaneamente o raciocínio, mas moldam atitudes de aceitação ou resistência de forma duradoura. Para ele, sentimentos profundos não são simples reações automáticas, mas componentes estruturais do funcionamento mental que influenciam os processos cognitivos, afetando diretamente a forma como interpreta-se, seleciona-se e reage-se às informações (Pinker, 1999). 

A teoria de Pinker (1999), revela que a resistência apresentada pelos pais não se resumia às dificuldades práticas ou logísticas, mas tratava-se de uma reação emocional complexa, marcada por medo de envolvimento, receio de assumir responsabilidades e a cultura da não participação da comunidade escolar nesses órgãos colegiados. Isso ocorre porque, quando emoções fortes dominam o cenário mental, o cérebro tende a priorizar mecanismos de defesa e autopreservação, o que pode bloquear o processamento racional de argumentos ou alternativas. Assim, mesmo diante de explicações claras e fundamentadas, a resposta emocional pode se sobrepor à lógica. As emoções, nesse contexto, atuavam como filtros cognitivos: termo que pode ser compreendido à luz da ideia de que o sistema emocional molda a percepção da realidade. Aquilo que os pais ouviam ou entendiam era fortemente influenciado por suas experiências vivenciadas ao longo da vida. 

Pinker (1999), sugere que esse tipo de “desvio” é uma herança evolutiva: emoções intensas, em determinados contextos, funcionam como atalhos mentais para decisões rápidas, o que, embora útil em situações de perigo, pode ser disfuncional em ambientes que exigem reflexão e empatia. Esse entendimento foi fundamental para a mudança de postura da gestora na situação narrada, mesmo sem o prévio conhecimento das teorias de Pinker. Ficou evidente que não bastava oferecer soluções técnicas ou argumentos racionais, mas de uma atuação também no campo afetivo, buscando construir vínculos de confiança e segurança emocional (Garrido, 2020). 

A partir disso, os pais começaram a interagir, e a resistência foi cedendo gradativamente. Tal mudança não foi resultado de maior persuasão lógica, mas sim da criação de um ambiente onde as emoções deixaram de ser barreiras e passaram a ser reconhecidas como parte legítima do processo de decisão, exatamente como Pinker (1999) e Garrido (2020) sugerem com relação à influência das emoções no comportamento humano. 

Ampliando essa compreensão, Damásio (2022), em “Sentir e Saber”, reforça que razão e emoção são indissociáveis. Para ele, a consciência emerge da interação entre sentimentos e processos cognitivos, sendo os sentimentos corporificados parte essencial da construção do pensamento. Assim, decisões consideradas racionais são, na verdade, profundamente influenciadas por estados emocionais prévios. 

A abordagem inicial, utilizada na situação narrada acima, havia sido excessivamente técnica, centrada em dados e argumentos lógicos, desconsiderando o peso emocional que o tema carregava para os pais. No entanto, ao reformular a estratégia, emergiu um diálogo emocional, estimulando identificação e pertencimento a comunidade escolar. Ao reconhecer e validar seus medos, e ao construir uma relação de confiança, foi possível abrir espaço para a escuta e o engajamento. Essa mudança de postura refletiu diretamente nos resultados, demonstrando na prática o que Damásio (2022), propõe sobre compreender e integrar os aspectos emocionais é essencial para promover decisões mais humanas, eficazes e sustentáveis. 

Além disso, Lauro Carlos Wittmann e Sandra Regina Klippel (2012), enfatizam a importância da criação de espaços de diálogo, permitindo que todos os envolvidos possam expressar suas preocupações e contribuir para soluções conjuntas. Se essa estratégia tivesse sido aplicada de forma mais estruturada na ocasião narrada, talvez o engajamento dos pais tivesse sido alcançado de maneira ainda mais eficaz. 

Como Damásio (2022) ressalta, “a razão não é tão pura quanto supunha-se e os sentimentos não são tão distantes da racionalidade” (p. 32). Isso significa que, a tomada de decisão eficaz na gestão escolar não pode ser apenas lógica e técnica, mas precisa integrar a dimensão emocional dos envolvidos. Quando há reconhecimento da influência dos sentimentos na construção da consciência, a tomada de decisões torna-se mais equilibrada e promove relações mais autênticas dentro do ambiente educacional, beneficiando a todos os envolvidos.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A experiência vivida durante uma das primeiras assembleias escolares, no exercício da gestão entre os anos de 2020 e 2021, revelou-se um ponto de inflexão no modo de compreender o processo decisório dentro da escola. A resistência dos pais em participar do Conselho Deliberativo Escolar (CDE) não apenas evidenciou um desafio prático de mobilização, mas expôs camadas mais profundas de desconfiança, insegurança e distanciamento entre a comunidade e a instituição. O silêncio diante do convite à participação, seguido de justificativas como falta de tempo, desconhecimento do papel no conselho e descrença na efetividade das decisões colegiadas, indicava que o problema não era apenas informacional, mas emocional e relacional.

A tentativa inicial de resolver a situação com argumentos técnicos e explicações formais mostrou-se ineficaz. A insistência, naquele momento, poderia ter acentuado ainda mais a resistência. Foi nesse ponto que, intuitivamente, optou-se por uma mudança de abordagem: em vez de reforçar normas e diretrizes, buscou-se estabelecer uma conexão afetiva, compartilhando histórias, exemplos reais e abrindo espaço para escuta. Essa virada estratégica, ainda que não fundamentada teoricamente naquele instante, revelou-se decisiva para transformar o ambiente da assembleia. A interação aumentou, os olhares se tornaram mais atentos e, gradualmente, surgiram os primeiros voluntários.

A posterior leitura das obras de Steven Pinker e António Damásio permitiu compreender, com mais clareza, os mecanismos que estavam em jogo naquela situação. A teoria de Pinker (1999), sobre o papel das emoções como filtros cognitivos, ajudou a interpretar a resistência inicial dos pais não como simples desinteresse, mas como uma reação emocional complexa, marcada por medo, receio de exposição e experiências anteriores de exclusão. Damásio (2022), por sua vez, reforça que razão e emoção não são forças opostas, mas dimensões interdependentes da consciência. A decisão de reformular a estratégia de comunicação, portanto, não foi apenas uma escolha prática, mas uma resposta sensível a um cenário emocional que precisava ser acolhido antes de ser transformado.

O resultado mais evidente foi a constituição bem-sucedida do conselho, com representantes eleitos e engajados. No entanto, os efeitos da mudança de abordagem foram além do cumprimento de uma exigência institucional. A assembleia tornou-se um espaço de escuta, pertencimento e construção de vínculos. Os pais passaram a se sentir parte do processo, não apenas como convidados, mas como sujeitos ativos na vida escolar dos filhos. Esse movimento, ainda que sutil, contribuiu para fortalecer a cultura de participação e abriu caminho para outras ações colaborativas ao longo da gestão.

Outro resultado importante foi o amadurecimento da própria postura da gestora diante de situações de impasse. A experiência demonstrou que a tomada de decisão na gestão escolar não pode se apoiar exclusivamente em argumentos racionais ou em normativas. É preciso considerar o contexto emocional dos envolvidos, reconhecer os sentimentos que atravessam cada situação e construir estratégias que dialoguem com essas dimensões. A intuição, nesse caso, funcionou como um recurso legítimo de leitura do ambiente, antecipando o que a teoria viria a confirmar mais tarde.

A análise dessa vivência também revelou a importância de criar espaços permanentes de diálogo e escuta dentro da escola. Como apontam Wittmann e Klippel (2012), a participação só se efetiva quando há canais reais de expressão e quando os sujeitos se sentem seguros para compartilhar suas inquietações. A assembleia, nesse sentido, deixou de ser um momento burocrático e passou a ser um espaço de construção coletiva, onde a emoção não era vista como obstáculo, mas como parte legítima do processo.

Em síntese, os resultados da experiência indicam que decisões mais eficazes e sustentáveis na gestão educacional emergem quando há integração entre razão e emoção, entre técnica e sensibilidade. A escuta ativa, a empatia e a abertura ao diálogo mostraram-se estratégias fundamentais para promover o engajamento da comunidade escolar e fortalecer a gestão democrática. A vivência analisada confirma que, mesmo diante de resistências, é possível construir caminhos de participação quando se reconhece que as decisões não são apenas escolhas racionais, mas também respostas afetivas a contextos humanos complexos.

Para sistematizar os principais achados da experiência relatada, a seguir apresenta-se uma tabela que organiza os elementos centrais observados durante o processo de mobilização dos pais para o Conselho Deliberativo Escolar (CDE). A tabela contempla os desafios enfrentados, as estratégias adotadas, os fundamentos teóricos que dialogam com a prática e os resultados alcançados. Essa síntese permite visualizar, de forma clara, como a tomada de decisão na gestão escolar pode ser aprimorada quando há sensibilidade às dimensões emocionais e abertura para a escuta ativa.

Tabela 1 – Síntese dos resultados da experiência de gestão escolar

Fonte: Dados da pesquisa (relato de experiência da autora, 2020–2021).

A tabela 1, evidencia que a transformação da resistência em participação não ocorreu por imposição de normas ou reforço de argumentos técnicos, mas pela criação de um ambiente emocionalmente seguro, onde os sujeitos puderam se reconhecer como parte do processo. A escuta ativa, o uso de narrativas e a valorização das emoções mostraram-se estratégias eficazes para promover o engajamento e fortalecer a gestão democrática. Ao integrar teoria e prática, razão e sentimento, a experiência analisada confirma que decisões mais humanas e sustentáveis nascem do encontro entre conhecimento técnico e sensibilidade relacional.

Logo, os resultados observados na experiência relatada dialogam diretamente com as contribuições teóricas de Pinker, Damásio, Garrido e Wittmann & Klippel, revelando como os fundamentos da neurociência e da gestão democrática se manifestam concretamente no cotidiano escolar. A resistência inicial dos pais, interpretada à luz de Pinker (1999), evidencia o papel das emoções como filtros que moldam a percepção e influenciam a disposição para o engajamento. A mudança de abordagem, que priorizou a escuta e a conexão afetiva, confirma a tese de Damásio (2022) de que razão e emoção são inseparáveis no processo decisório, sendo os sentimentos parte constitutiva da consciência e da ação. 

A criação de um espaço de diálogo, conforme defendem Wittmann e Klippel (2012), foi decisiva para que os pais se sentissem pertencentes e legitimados a participar. Já a intuição da gestora, mesmo sem embasamento teórico prévio, reforça a ideia de Garrido (2020) de que decisões eficazes na gestão educacional emergem da sensibilidade ao contexto e da capacidade de ler os sinais emocionais do ambiente. Assim, a experiência vivida não apenas confirma os aportes teóricos, mas os atualiza e os ressignifica a partir da prática.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A experiência vivida na tentativa de mobilização dos pais no Conselho Deliberativo Escolar (CDE) evidenciou que a resistência inicial não estava apenas relacionada à ausência de informações sobre seu funcionamento, mas também profundamente enraizada em fatores emocionais. Sentimentos como insegurança, medo de exposição ou de não corresponder às expectativas influenciaram diretamente o comportamento dos pais diante da proposta de participação.

Ao reformular a abordagem, substituindo uma comunicação meramente técnica por estratégias mais sensíveis, como o uso de relatos significativos e a criação de espaços de escuta e interação, foi possível promover um ambiente mais acolhedor e empático. Como resultado, a hesitação inicial foi gradualmente transformada em engajamento e pertencimento.

A mudança de comportamento e da cultura de participação demonstra a importância de compreender o processo de tomada de decisão sob o ponto de vista da emoção, da razão e das experiências vivenciadas pelos envolvidos, haja vista os mecanismos subjacentes existentes, conforme demonstrado pelos autores abordados.

Sobre as perspectivas teóricas abordadas, conclui-se que Pinker destaca como emoções intensas podem agir como filtros cognitivos, interferindo na capacidade de julgamento racional. Damásio, por sua vez, enfatiza que razão e emoção não são sistemas opostos, mas interdependentes, e que a consciência emerge da integração entre ambos. Já Brosch et al. (2013), contribui com uma perspectiva voltada ao campo educacional, mostrando como as emoções impactam a dinâmica das relações escolares e o envolvimento dos sujeitos nos processos institucionais.

Essas contribuições teóricas lançam luz sobre a complexidade da gestão escolar, que exige mais do que domínio técnico ou cumprimento de normas burocráticas. É imprescindível que o gestor atue com sensibilidade e desenvolva competências socioemocionais para compreender os sentimentos dos diferentes atores escolares e, a partir disso, construir estratégias eficazes de mobilização e participação.

Este estudo reforça, portanto, a importância de que gestores educacionais compreendam os fundamentos neurocientíficos e psicossociais que orientam o comportamento humano. Integrar esse conhecimento à prática da gestão democrática amplia sua potência transformadora, tornando-a mais participativa, dialógica e eficaz na construção de comunidades escolares mais justas e engajadas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BROSCH, T.; SCHERER, K. R.; GRANDJEAN, D.; SANDER, D. The impact of emotion on perception, attention, memory, and decision-making. Swiss Medical Weekly, [S.l.], v. 143, p. w13786, 14 maio 2013. DOI: https://doi.org/10.4414/smw.2013.13786..

DAMÁSIO, A. Sentir e saber: as origens da consciência. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.

GARRIDO, S. L. Neuroeducação e neurodidática: como o cérebro aprende. 1. ed. Curitiba: Intersaberes, 2022.

MACHADO, E. S.; MARTINS, R. M. Desafios e possibilidades da gestão educacional: inovação e melhoria na tomada de decisões. RCMOS – Revista Científica Multidisciplinar O Saber, [S.l.], ano IV, v. 1, n. 2, p. 1–15, ago./dez. 2024.

PINKER, S. Como a mente funciona. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

TOMAZ, C.; GIUGLIANO, L. G. Resenha: A razão das emoções: um ensaio sobre “O erro de Descartes” de António R. Damásio. Estudos de Psicologia, Brasília, v. 2, n. 2, p. 407–411, 1997. Universidade de Brasília.

WITTMANN, L. C.; KLIPPEL, S. R. A gestão democrática no ambiente escolar. Curitiba: CRV, 2012.

Rochadel, Joyce Silva Jerônimo. Tomada de decisão na gestão educacional: Um relato de experiência sob a perspectiva da neurociência.International Integralize Scientific. v 5, n 49, Julho/2025 ISSN/3085-654X

Referencias

Vivian Caroline Coraucci.
BAILEY, C. J.; LEE, J. H.
Management of chlamydial infections: A comprehensive review.
Clinical infectious diseases.
v. 67
n. 7
p. 1208-1216,
2021.
Disponível em: https://academic.oup.com/cid/article/67/7/1208/6141108.
Acesso em: 2024-09-03.

Share this :

Edição

v. 5
n. 49
Tomada de decisão na gestão educacional: Um relato de experiência sob a perspectiva da neurociência

Área do Conhecimento

O PLANTIO E O CULTIVO DE HORTALIÇAS NA ESCOLA
Cultivo; nutrição; custo flexível
Educação emocional na primeira infância: O alicerce para a resiliência na vida adulta
educação emocional; primeira infância; resiliência; terapia cognitivo-comportamental; disciplina positiva.
Gestão participativa e cultura democrática: Um estudo sobre os impactos da escuta ativa na tomada de decisões escolares
gestão participativa; cultura democrática; escuta ativa; tomada de decisão escolar; comunicação dialógica
Os caminhos do cérebro na primeira infância: Contribuições da neurociência para o processo de alfabetização
neurociência; aprendizagem infantil; alfabetização; emoção; plasticidade cerebral.
Jogos como ferramenta de alfabetização: A contribuição do programa recupera mais Brasil
jogos educativos; alfabetização; programa recupera mais Brasil.
Amor patológico, dependência afetiva e ciúme patológico: Uma revisão abrangente da literatura científica
amor patológico; dependência afetiva; ciúme patológico; comportamento; psicologia.

Últimas Edições

Confira as últimas edições da International Integralize Scientific

feat-jan

Vol.

6

55

Janeiro/2026
feat-dez

Vol.

5

54

Dezembro/2025
feat-nov

Vol.

5

53

Novembro/2025
feat-out

Vol.

5

52

Outubro/2025
Setembro-F

Vol.

5

51

Setembro/2025
Agosto

Vol.

5

50

Agosto/2025
Julho

Vol.

5

49

Julho/2025
junho

Vol.

5

48

Junho/2025